Britz Lopes

POR ONDE ANDEI

Britz Lopes é jornalista e globetrotter. Adora vinho e fazer tour pelas cozinhas do mundo.

Sob o domínio do medo

Qual é a delas? Perseguição mortal? Atração fatal? Não é segredo para ninguém, que me conhece pelo menos um dedinho, que mooorro de medo de baratas! Minúscula, normal, em fotografia, sonho, grande e ao vivo então... é taquicardia, falta de ar, desmaio às vezes. Viro um molambo no lixo se alguma chega perto de mim. Mas o pior mesmo é o tal contato imediato de último grau, do qual já fui vítima algumas vezes. Não queiram ler isso... Mas leiam para conhecer bem o ser com o qual estão lidando.

Não sei ao certo ainda que teoria seguir. Existe uma que prega o seguinte: quando você tem medo de algo, você atrai isso. Jesus acende a luz! Minhas experiências traumáticas com elas remontam à adolescência, quando passava férias em Nova Veneza.



Tomei meu banho e fui de toalha para o “quartinho-despensa” onde estava o roupão, que ficava além da área onde meu pai recebia os amigos. E não é que chegou um sem avisar? Coloquei a vestimenta, e, bonita, fui atravessar a passarela cumprimentando o doutor Maurício – sim, ele era importante. Senti algo estranho tentando sair e...  era uma barata. No meio do desfile joguei tudo e fui tomar outro banho depois de um copo de água com açúcar – adoçantes não existiam e acho que não fariam o mesmo efeito.



Elas me dominam plenamente; tentar ser forte é bobagem. Quando ouço a outra teoria de que somente as baratas sobreviveriam a uma catástrofe nuclear, quero morrer antes da hecatombe. Se contar aqui todas as passagens nas quais elas foram personagens principais e eu a descompensada, Jesus, apaga a luz!

Uma vez, morava com Adevania e Arminda no Jardim América e trabalhava na Rede Manchete de Televisão. No nosso modesto apartamento apareceu uma delas; no meu quarto, é claro. Pedi asilo no das meninas, consegui e descarreguei o Baygon velho de guerra no meu refúgio. No dia seguinte a faxineira chegou para encontrar o cadáver, sem o qual não voltaria ao recinto. Ana teve paciência comigo. Veio cedo com a missão de vasculhar todo o guarda-roupa. Achou a bicha mortinha da Silva! Todas as roupas foram para a lavanderia e eu me senti vitoriosa. 




E lá fomos nós no meu Fiat 147 trabalhar na sede da TV, que ficava no Setor dos Funcionários. Então, elas se uniram na dor e na vingança. Na última curva, depois do Zoológico, entra uma barata voando pela janela do carro. Bati na lixeira o combalido veículo e o abandonei até que um motorista da emissora, o Curió, resgatou a viatura e achou a barata depois de mais uma dose de Baygon – eu carrego o veneno e tenho em casa várias versões.

Tempos depois fui trabalhar na TV Record. E elas também funcionaram no controle remoto. Morava no alto do Bueno e num sábado de manhã tinha uma missão importante na sede da TV – uma entrevista com o Bispo Macedo. Como a emissora era ao pé do Morro da Serrinha, resolvi ir andando para me exercitar. Havia dormido com a janela aberta – coisa insana que não faço mais – e sonhado com uma espécie de invasão de baratas... Calcei o tênis, novo, e fui fazer o meu trabalho com algo me incomodando no pé direito desde cedo. Voltei ao meio-dia e havia sim, uma barata espezinhada dentro do meu sapato. Chorei , gritei, desinfetei e traumatizei de vez.


Hiiii, as histórias são muitas. Já mudei de apartamento, chamei os Bombeiros, dormi do lado de fora e quando não consigo matá-las eu me rendo logo, fraqueza pura e simples. Deixo o espaço para elas.

Certa vez, fui à inauguração de um imenso bar na T-3, de um amigo nosso – Cervejão era o nome. Festa para 300 pessoas. Espaço aberto, como goiano gosta, entrou uma barata voadora. Pousou onde? Nos meus lindos cabelos ruivos recém escovados. Virei bruxa antes da meia-noite e fui pra casa aos prantos com a sensação de ter feito o papel de Carrie, a Estranha.

Uma recente e muito traumática foi numa noite de sexta-feira. Eu tomando vinho sozinha em casa depois de uma aplicação de CO2 no rosto (o olho já não abria mais por conta do inchaço) uma da raça gigante faz uma rasante sobre a sala. Às cegas, fiz chover veneno em todo o apartamento. Mas, e o cadáver que eu não enxergava? Apelei para a única vizinha que conhecia no prédio, que foi tão gentil ao ponto de não me apresentar todo o corpo da peçonhenta, de tão grande e assustadora que era.

No meu atual endereço, claro que elas já entraram voando pela imensa e desnecessária sacada dupla inúmeras vezes, mas houve um acontecimento que me deixou com um pouquinho de segurança. No afã de evitá-las – ação preventiva é muito importante –, chamo o pessoal da tal pasta rosa de três em três meses – para reforçar a aplicação do Baygon, que pra mim é o perfume que protege, entendem? Da última vez, o rapaz levou um borrifador para ralos e várias seringas com o veneno antitóxico para os armários e tal. Fez o serviço e foi embora.

No dia seguinte notei que ele havia deixado a sacola com vários kits de extermínio na minha área de serviço. Liguei e avisei, é claro. Uma, duas, várias vezes e nada de mandarem recolher. Ok. Comprei luva e máscara e passei a fazer aplicações semanais do produto. Minha atitude, aliada à nova linha de Baygon primavera-verão, mas umas bolachinhas venenosas que achei num supermercado de ponta de rua – aliás fico de olho em todas as novidades do ramo – estão me rendendo uma trégua. Até quando, não sei. 


Nota da editora: Testumunho vivo do pavor e repugnância da autora pela espécie sinantrópica da ordem da Blattaria ou Blattodea, gastei horas matutando como ilustrar o texto. Para não correr o risco de vê-la desistir de publicar suas deliciosas histórias neste espaço e nunca mais voltar a acessar o site, apelei para o bom-humor. Nada de fotinhas de baratas!


A seguir, não perca a galeria de imagens de possíveis reações da autora, ao se deparar com a inimiga. Qual delas a representa mais? Deixe o seu comentário.

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