Britz Lopes

POR ONDE ANDEI

Britz Lopes é jornalista e globetrotter. Adora vinho e fazer tour pelas cozinhas do mundo.

Vencida por uma caneca de café

Aderi geral a essa onda fit, natural, orgânica, sem trans. Como só o que é comida que vem da terra, além da galera que cisca, berra, grasna e grunhe – dos que nadam, muito pouco porque não aprecio a proteína branca. Nada empacotado ou enlatado que tenha sido alterado. E resumi o de beber também: água, vinho, sucos naturais e café. Ah, o café! Dia desses descobri, de forma inusitada, que sou mais desesperada com a cafeína do que com o tanino. Sou capaz de ficar muitos dias sem tomar vinho por uma boa causa – aliás, já o fiz –, mas café, nem pensar.


Fui ao Dr. Weder Willian e pedi aquela bateria de exames para uma geral da pessoa aos 50. Entre eles estava o de bioimpedância – o tal que mede massa magra, nível de gordura, músculo, tudo o que você esconde de você mesmo sempre. Liguei para marcar e a atendente foi logo ditando as regras para o dia que antecederia o malvado: nada de exercícios, líquido gasoso ou escuro. Espera um pouco: vou ter de comer o pão de queijo da minha mãe no domingo com o que mesmo? Chá não topo; com suco não combina.

Começava ali os meus dez dias de sofrimento antecipado. Uma manhã sem café? Daí fui armando estratégias: vou beber um vinho, dormir de madrugada, acordar bem tarde e pular o café da manhã – até o nome da refeição estava do meu lado. Ou: não bebo, acordo bem cedinho e como o pão de queijo de ontem – com o café. O dilema se arrastava dia após dia. Em sonho, inclusive. Até pesquisei na internet, que não me apresentou o porquê sustentável da proibição. E nada de vislumbrar uma alternativa consistente. Comentei com alguns amigos em busca de uma grande ideia. Em vão!


No sábado – o exame seria na segunda – cheguei à casa de mamãe. Havia decidido que comeria só as frutas e o suco de laranja no café da manhã de domingo. Era um dia só de sofrimento mesmo... Mas, a sábia dona Ilaídes tinha, o tempo todo, a solução para evitar a crise de abstinência. “Bobagem”, disse ela. “Você toma o seu café mais cedo e bebe muita água o dia inteiro. Vai limpar tudo”. Assim o fiz. Saboreei a caneca grande como se fosse a última antes do paredão. E dá-lhe água o dia inteiro.

Assustei depois. Me comportei como uma fraca e dependente. E se minha atitude fosse camuflar algo no exame? Estraguei tudo!, pensei. E por causa de uma xícara de café – grande, verdade. E chegou a danada da segunda-feira, dia D. Hora: 10h30 sem café. Entro nervosa no consultório da nutricionista pronta para mentir. Ela pergunta nada. Só me pede para tirar a bota e a meia fina (estava chovendo). Mal sabia que tenho pavor de ficar descalça, mas eram só dois passos até a máquina malvada que revela todos os segredos – além do mais, eu já havia feito o pior, contrariar as instruções pré-exame.


Em cinco segundos, tudo passou. Ela imprimiu os resultados, bacanas por sinal. Dirigi para casa e fui tomar o meu café às 11 horas. Duas cápsulas de Nescafé Dolce Gusto Buongiorno. Depois do almoço, outra só para descontar. Atitude impensada que me obrigou a correr para as promoções da Black Friday na tentativa de me reabastecer – a caixa com 16 custa entre R$ 25,00 e R$ 31,00, pode? Como no dia da fraude eles amarram a venda da cafeteira para dar desconto nas cápsulas, passei batida porque achei desaforo. Meu equipamento está perfeito. Daí achei meu coador de voil (sei lá se o tecido é esse) e abri o convidativo pacote que Márcia Pinchemel me deu de presente – Latitude 13, blend da Chapada Diamantina, Bahia. Bebi sem piscar.

O que fica: vou odiar ainda mais a Black Friday porque quando começarem os anúncios significa que estará chegando a hora de uma nova bioimpedância. Mas, lado bom: vou ficar pedante com isso, pois já sei como funciona.

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