Britz Lopes

POR ONDE ANDEI

Britz Lopes é jornalista e globetrotter. Adora vinho e fazer tour pelas cozinhas do mundo.

Na guerra com incontinência

Urinária mesmo. Varredura em casa destruída por bombas do Hamas em Sderot quase me expõe ao vexame total frente ao exército israelense.

Então. Aterrissamos em Tel Aviv em 28 de dezembro de 2010 e Serge, um judeu francês, motorista do correspondente da Record, Herbert Moraes, foi nos buscar no aeroporto. Nos instalamos no apartamento do amigo jornalista, que só chegaria no dia seguinte. Endereço bem localizado, partimos logo para o reconhecimento do terreno. Detalhe: no dia anterior, Israel havia lançado sua maior ofensiva em 40 anos contra o grupo Hamas em Gaza, a coisa de 50 quilômetros dali. Mas a noite na cidade acontecia. Restaurantes e bares lotados, gente bonita circulando pelo Rothschild Boulevard, a rua mais icônica da capital israelense.




No dia seguinte, Herbert chegou agoniado para ir logo para a trincheira – jornalistas de todo o mundo, em época de guerra, montam acampamento a mil metros do front. É claro, eu e Marcio fomos juntos. Noite de adrenalina em níveis máximos, com drones espiões cruzando os céus e barulho de explosões. Na volta para a cidade, o jornalista nos dá um panorama da situação atual e avisa que amanhã tem mais. E como teve!





O segundo dia começou com um lauto café israelense – come-se pepino com coalhada, rúcula, humus com um pão incrível. Partimos logo para Sderot, cidade próxima a Gaza que estava sendo bombardeada. A orientação era entrar em um bunker (abrigo) ou se enfiar debaixo de carro em caso de sirene de alerta. Herbert foi entrevistar um rabino cuja casa foi parcialmente destruída e Marcio, fotografar a cena. O motorista, sei lá onde havia se escondido. Na rua abandonada, só eu. E a sirene toca. O bunker estava longe e minhas pernas tremiam. 15 segundos não seriam suficientes. Não sobraram forças para nada. E no chão não ia me deitar. Me encostei na van, rezei e esperei.





A bomba caiu a pouco mais de 300 metros dali. E lá fomos nós ver os estragos. A essa altura já havia mordido na língua e a vontade de fazer xixi era monstra. Na casa, já abandonada pela família – aliás era uma cidade fantasma –, perguntamos a um senhor que chorava próximo se eu poderia usar o banheiro. Ele indicou o terceiro andar da construção quase toda destruída. Demorei a chegar, pois as pernas não iam. Fiz o que deveria fazer e, um pouco mais aliviada do incômodo, fui reencontrar a tropa. Mas a descida foi pior do que a subida.





No segundo lance de escada me encontro com três soldados do exército israelense de fuzis no ombro. Pronto! Pensei. Dessa eu não escapo. Levantei os braços, fechei os olhos e falei em voz trêmula: I'm brazilian journalist, please... e mais assunto não houve. Passaram por mim como se eu não existisse. Era apenas uma varredura rotineira. Pra eles, né? O pior é que a vontade de fazer xixi voltou instantaneamente, como se a minha adrenalina quisesse escorrer pelas pernas. Entramos na van e fomos para um restaurante a caminho de Tel Aviv.

Cansados de guerra, pulamos a incursão ao front do dia seguinte e curtimos a cidade, onde as bombas do Hamas não chegavam à época e que tem um sistema de defesa antimísseis conhecido como Iron Dome. Aliás, Tel Aviv é segura em todos os aspectos. Não tem nem trombadinha nas ruas.

No 31 de dezembro, fomos passar a nossa virada de ano na casa de uma jornalista brasileira que morava em Jerusalém, junto com outros correspondentes de várias partes do mundo. Na ceia, rolaram vinhos e muita comida – até um pernil de porco meio contrabandeado. Depois fomos eu, Marcio e Herbert passear pela bela Jerusalém adormecida. Só nossa. Vasculhamos cada centímetro daquele lugar sagrado durante toda a madrugada. Pelos próximos três dias ficamos ali, entre a vida profana fora das muralhas e os sagrados rituais dentro delas.

A recepcionista do hotel Dan Boutique, na hora do check-in, nos deu algumas informações úteis para lidar com as circunstâncias da guerra, mas recomendou veementemente: “Não vão ao bairro dos judeus ortodoxos e não peguem ônibus com muitos deles”. Claro, alvos fáceis de atentado. Neste segundo dia na cidade, o programa era conhecer o Yad Vashem, o museu da vergonha que guarda as lembranças do holocausto. Visita longa, saímos só quando o espaço estava fechando. Não havia táxi, pegamos um ônibus. E, adivinha? O ônibus foi se enchendo de judeus ortodoxos e a última parada era onde? No bairro deles. Descemos correndo e fomos caminhando o resto. E o que mais? A vontade de fazer xixi voltou com força.

Apesar da incontinência ativada pela adrenalina, foi uma experiência e tanto. Em 2016 repeti a dose com a minha amiga Cláudia de Castro. Viagem planejada com muita antecedência dá nisso. Desta vez, as bombas chegaram a Tel Aviv. Voos cancelados, sirene por hora e um sofisticado jantar, as duas, num hotel chique, por conta da nossa coragem em não fugir do front. Assunto para a próxima semana.

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