Britz Lopes

POR ONDE ANDEI

Britz Lopes é jornalista e globetrotter. Adora vinho e fazer tour pelas cozinhas do mundo.

Como inverter a carga genética

Na adolescência, era gorda de dar dó. Nos outros e em mim mesma. O pão com manteiga gritava no café e no lanche. E o arroz era solto. Meu pai e minha mãe chegavam na conversa com delicadeza. Até que um dia conhecemos o doutor José, médico recém-chegado a Nova Veneza, onde morei até os 15 anos, viu uma cara linda (sim) sustentando um corpo, digamos, desproporcional – mas quando o cabelo era cortado à moda Elis Regina, parecia mesmo era um menino obeso. E ponto. Doutor conversa aqui e ali, e prescreve o que havia na época. Anfetaminas.

Encarei o Fenproporex como se fosse ele a última pedra para me apoiar antes da queda na cachoeira. E passava as tardes no quarto ouvindo Bee Gees, aplicada por minha tia solteirona, a única coisa que alinhava mais ou menos os neurônios alterados. Disco de vinil furado, algumas semanas depois perdi dez quilos. Nos 15 anos estava, enfim, bem menos pesada dentro de um vestido branco com alcinha de amarrar e gola bordada.

Era o fim da guerra? Não, o começo de várias batalhas, maioria inglórias, mas educativas. Surgiram as clínicas de estéticas e frequentei exatamente todas. Já fiquei tomando choque na barriga e nas coxas celulitadas por 40 minutos depois de me submeter às agulhas subcutêneas enfiadas sem anestésicos. Tortura pura e simples. Depois vieram o Lipostabil e a drenagem linfática juntos com a sopa de época: só nabo; o jejum da lua... e assim driblava as quatro estações. E dá-lhe efeito sanfona.

A ficha só caiu com o advento do Facebook. Ahhh. Fiquei (e estou) muito magra por causa da rede social e de um certo controle mental que não sei como consegui, já que não sei meditar. Com o Face funcionou assim: quando vi algumas amigas antigas de igual idade que talvez não tiveram a oportunidade de conhecer as anfetaminas, agora proibidas, traumatizei. Com a mente, a sublimação: já que sua mente controla o seu corpo, sublime tudo o que não seja comida ou, sem falsidade, o que engorda: bolinho de bacalhau? Só um, quando estiver em Lisboa. Fiore de zucchini empanada? Uma, em Roma. Churros? Nenhum em Madri. E dá-lhe pepino sem sal quando a fome bater.

Então, não é muito difícil – minto – é uma questão de escolhas e escolhas são nada fáceis. Mas o que na vida não se resume a isso? Vou ou não vou? Sou ou não sou? Aceito ou não? Faço ou não faço. Aliás, parênteses para o faço. Não, não tem outro jeito, se não fizer... ACADEMIA!!!! O bom é que vira vício; o ruim é que a gente demora para viciar. Mas é o seguinte, no resumo da ópera bufa: a equação matemática que você não sabe fazer, aqui funciona maravilha. Come-se menos, exercita-se mais, fica-se magro! Simples assim. E o melhor: Na quarta-feira, exatamente – tem de ir todos os dias –, a sua endorfina está em níveis tão elevados que a vontade que dá é de cortar o gramado do Serra Dourada. Na tesoura, de preferência. E melhor: sem querer comer a grama.

PS: Outro segredo: meio copo de limão puro espremido em jejum. Quase mata, mas o melhor de todos os males necessários.  

1 comentário

Marcia Pinchemel

Eu amo o texto de Britz. Você arrasa amigaaaaa
* Campos Obrigatórios. **Seu email não será divulgado