Apresentação do DJ Alok, durante Festival Villa Mix, em Goiânia | Imagem: Rubens Cerqueira 

Apresentação do DJ Alok, durante Festival Villa Mix, em Goiânia | Imagem: Rubens Cerqueira 


A geração que se descobriu eclética

Do trance ao sertanejo. Grandes festivais de música modificam suas essências e apostam por diferentes estilos para satisfazer a um público cada vez mais aberto, flexível e versátil

“Na alegria e na tristeza; No Trance e na balada sertaneja”, este foi o post da arquiteta goiana Cecilia Puerro de Melo, 35, ao publicar uma foto ao lado do namorado Alan Ribeiro no Festival Villa Mix que aconteceu domingo na capital. Há pouco mais de três anos eles se conheceram na boate homônima. Ela roqueira, ele das pistas de eletrônico, se esbarraram por acaso em um lugar que teoricamente não tinha nada a ver com nenhum dos dois. “Eu era super radical. Sempre fui roqueira.  Fiquei a faculdade inteira sem ir em Carnagoiânia porque eu não aceitava o estilo, assim ‘de querer tacar fogo’! Eu odiava”, relembra. “Por isso ninguém me chamava. Ai eu pensei “Poxa, não participo de nada! Quando terminei um namoro quis sair para vários lugares e fui parar no Villa Mix. Ele, do mundo eletrônico, também não gostava de sertanejo e ‘caiu’ lá também; ninguém nem acreditava que ele estava lá.”

Reprodução das fotos de Redes Social do casal Cecilia Puerro e Alan Ribeiro: no show do PaulMcCartney e no festival Villa Mix​


Cecilia conta ainda que na primeira vez que foi ao festival encontrou um amigo todo roqueiro também. “Ele era daqueles todos tatuados. Aí foi super engraçado, olhamos um para o outro e disparamos: ‘você aqui?’”

Estaria o jovem brasileiro se tornando mais eclético? Parece que a tendência caminha mesmo por aí. Uma pesquisa pioneira publicada em 2013 pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) denominada Tribos musicais comprova que o Brasil moderno não tem mais o perfil sonoro dos anos 1970. A cara musical do país agora é outra, e samba e MPB já não são a preferencia. Da pesquisa, pode-se inferir que a trilha do Brasil se alterou profundamente nos últimos dez anos. A classe B, que antes definia o gosto, cedeu primazia às classes C, D e E.



DJ Alok comanda a balada eletrônica no Festival Villa Mix | Imagem: Rubens Cerqueira
 


Outro ponto é que o acesso à música também mudou com o advento da internet e o consumidor teve mais liberdade para navegar pelos estilos. Houve um tempo em que as gravadoras regiam o consumo. Hoje tudo gira em torno dos shows e suas transmissões na web.

A pesquisa mostra que as seis tribos sonoras predominantes não estão congeladas, nem são estanques. Elas se misturam, evoluem e se influenciam mutuamente. Contribuem, a seu modo, para a riqueza e a diversidade da música brasileira.

Thiago Magalhães, assistente da pesquisa, comenta a revelação do estudo: “E queiramos ou não, hoje o pais é mais movido pela música sertaneja.” O estilo é escutado por 58% do público; MPB por 47%; samba e pagode por 44%; forró e rock ficaram empatados com 31%; logo as minorias: música eletrônica (29%), religiosa (29%), axé (26%), funk (17%), country (12%), clássica (11%) e jazz e blues (9%), segundo o Ibope.

FLEXIBILIDADE - Para o produtor e empresário Tom Gomes um dado que dá vantagem aos sertanejos é a flexibilidade. “Eles se adaptam a todos os públicos. Para conquistá-los, fazem pagode sertanejo, axé sertanejo e assim por diante.”


Também no Festival Villa Mix, em Goiânia, show dos sertanejos Matheus e Kauan | Imagem: Rubens Cerqueira 


Um exemplo disso foi a apresentação da dupla Matheus e Kauan no último domingo em um show que teve até clássicos da MPB e do Chiclete com Banana. “A nova música nossa inclusive é um reggae”, pontua Matheus.

E não foi só o show da dupla que apostou pela variedade e, sim, o festival como um todo. Na line-up de shows se apresentaram sertanejos de raíz como Chitãozinho e Xororó, a nova geração a exemplo de Jorge e Mateus mas também Wesley Safadaão com seu forro e o DJ Alok das pistas eletrônicas.

“A inclusão de outros estilos musicais soma para o Villa Mix porque hoje o público que curte sertanejo é bem eclético. Assim como os cantores também. O Villa acontece até no Rio de Janeiro onde se gosta muito de funk, com grande público”, argumenta Matheus. “As pessoas estão abrindo muito a mente. Nós mesmos escutamos muito rock and roll, MPB e forró. O público também é assim e, por isso, curte cada uma das atrações e vai embora só no último show”, observa Kauan.

Após sua performance muito aplaudida, o DJ Alok aponta a evolução deste processo. “O primeiro Villa Mix que vim foi um experimento e não sabia nem se ia conseguir continuar. O público está cada dia mais adaptado ao eletrônico. É como se o eletrônico estivesse transbordando para a zona mais popular”, diz Alok.

Flavia Viana, que apresentou a transmissão ao vivo do festival no You Tube, não tem dúvida de que “o Brasil já é um pais eclético. A gente curte desde funk até eletrônico e um dos ingredientes principais do sucesso do festival é esta mistura. Quando o Alok entrou, que é uma proposta totalmente diferente, a galera foi ao delírio”.

O primeiro grande evento a apostar pela diversidade foi o Rock In Rio. À época, em 2001, a line-up foi motivo de narizes torcidos. Na última edição, somando as bandas e artistas escalados para tocar nos palcos Mundo e Sunset, foram 88 nomes de vários estilos, vindos de 11 países diferentes. Teve banda de rock pesado como o Metallica e também axé music de Ivete Sangalo e o pop da Beyoncé.

 “Um festival como este leva outros públicos não só por atrações como a minha, mas pela estrutura de outro mundo. Vir para cá não é só curtir show sertanejo, mas curtir uma experiência. Eu viria mesmo se não gostasse de sertanejo”, acredita Alok.

“Eu amei o festival, a estrutura. Quando cheguei, estava tocando Chitãozinho e Xororó e achei ótimo porque é muito nostálgico, um clássico e fiquei impressionada em como eles são bons”, revela Cecilia.  Ela e o namorado escutam predominante house mas vão em eventos de samba e sertanejo, além de raves. “Um réveillon fomos para um show do Durval Lélis (axé) e uma vez estávamos em Angra dos Reis (RJ) e fomos numa boate ao som de funk. Depois que a gente vai em coisas assim, até mesmo por acaso, passa aquela pose de roqueiro metido”, confessa.

SOCIAL - Cecilia se permitiu ouvir outras coisas por uma necessidade social de participar de certos eventos e este desejo é muito do que move este fenómeno de integração entre as antigas ‘fechadas’ tribos musicais. “O que une todos é a música. O Brasil é um país movido a música”, acredita Thiago Magalhães.

A verdade é que 70% dos brasileiros afirmam “A música constitui parte importante da minha vida” contra 55% no México, 53% no Chile e 58% na Argentina.

“Escuto música o dia todo, acordo e levo a caixa de som pra tomar café da manhã e pra tomar banho”, exemplifica o agropecuarista Camilo Mendonça Carneiro, 32. Ele viajou de Belo Horizonte para Goiânia para o evento sertanejo, assim como também esteve aqui na capital há duas semanas para a festa Óscar, de essência eletrônica.

Camilo frequenta ainda carnaval com axé em Salvador e vai viajar para o festival Desert Trip, na Califórnia, que vai reunir lendas do rock como Bob Dylan, Neil Young, Roger Waters e The Who. “Minha base musical é sertaneja porque sou do interior mas já fui em show do Pink Floyd e do Rolling Stones. Cada hora tem a música que combina; cada estilo cumpre um papel  em momentos diferentes”, acredita.

O engenheiro civil baiano Gustavo Amorim de Macedo, 37, também enfrentou um voo para participar do Villa Mix e na semana que vem enfrentará outro para estar em Brasília para a festa Bonfim, com show de axé da Banda Eva. “Eu e meus amigos vamos em micareta, sertanejo, música eletrônica e até festa de criança!”, brinca. (*com informações da revista Época )         

1 comentário

William

Infeliz o homem ou mulher de um livro só
* Campos Obrigatórios. **Seu email não será divulgado