Arquitetura do hotel Tahat, em Tanmarasset, Argélia | Imagens: Rodrigo Balestra

Arquitetura do hotel Tahat, em Tanmarasset, Argélia | Imagens: Rodrigo Balestra


O primeiro olhar

No segundo relato sobre sua experiência na Argélia, o designer e professor Rodrigo Balestra fala sobre a sua adaptação no país que vive sob constante estado de vigilância

As primeiras horas em Tanmarasset foram de muita tensão e ansiedade, uma tormenta de sentimentos que há muito não experimentava. Medo, curiosidade, saudade, um quê de ambição e a certeza de que necessitaria de muita resiliência para superar o longo período que tinha pela frente na cidade. Sentimentos que no fundo representam o meu momento de vida, sobretudo por estar em um lugar totalmente diferente, com hábitos e costumes demasiadamente distintos dos meus, com um idioma é igualmente estranho a qualquer brasileiro, o árabe.



Momento de confraternização na escola

Desde que fui convidado a participar do projeto de transferência de conhecimento entre Brasil-Argélia, visando a qualificação de artesãos joalheiros e onde deveria ensiná-los a “arte” de desenhar joias com as mesmas técnicas e materiais utilizados no desenho industrial, que vinha alimentando a imaginação sobre como seria estar em um país islâmico, vivenciando a rotina das pessoas, seus hábitos, percebendo as dificuldades de qualquer morador da cidade, experimentando a comida, sentindo a força do clima desértico e, logicamente, tentando me comunicar da melhor forma possível com os novos amigos, sobretudo quando estivesse sem a intérprete por perto.

A viagem entre Goiânia a Argel, com escala em Paris, transcorreu muito bem, como se estivesse voltando à Europa, como fazia anos atrás, quando ainda vivia em Turim. Em Argel percebi a mudança (enorme) no comportamento das pessoas, nos trajes, na abordagem um pouco dura das autoridades, em como as pessoas se relacionam, conversam e se cumprimentam, ou simplesmente na forma como nos observavam, ainda no aeroporto.

Vi também o quanto se fuma neste país. Aqui se fuma em qualquer local e horário, independente se o espaço for fechado ou crianças estarem por perto, seja no aeroporto, nos restaurantes ou nas escolas, ninguém se importa com o hábito, nem mesmo as autoridades.



Alunos em ação no projeto de transferência de conhecimento entre Brasil-Argélia, visando a qualificação de artesãos joalheiros 

Já no desembarque vimos argelinos sacando seus maços de cigarro e acendendo ali mesmo, enquanto aguardavam a chegada das malas. Ninguém se incomoda, essa é a verdade, ou pelo menos parece ser. Aliás, para minha surpresa, até os guardas fumavam no recinto! Inusitado também foi ver um senhor andando de um lado para o outro com uniforme de vigilante (camisa social com emblemas da força policial, calça e gravata), calçando sandálias, sem a menor cerimônia.

Já em Tanmarasset, tive o privilégio de ver um homem com traje social que consistia num blazer azul cobalto de manga curta (isso mesmo!), gravata, sapato preto e calça social. Mal sabia eu que na Argélia, é um hábito bastante comum a todas as pessoas, de qualquer idade, gênero ou status, calçar sandálias ou chinelos o tempo todo, independente se está vestindo uniforme ou traje social.


Alunos durante a aula de aperfeiçoamento de desenho de joias

Isso porque o calor costuma ser intenso a partir de abril, atingindo seu pico durante o Ramadan, entre junho e julho. Além disso, como praticamente todo o país é mulçumano, torna-se compulsório rezar quatro ou cinco vezes ao dia, onde se deve descalçar e se lavar antes da cada pregação, mesmo se estiver no trabalho, em casa ou na mesquita. Então, é mais prático utilizar sandálias do que sapatos fechados e isso se vê em toda parte, especialmente entre os jovens que costumam usar sandálias de plástico, e idosos, que preferem chinelos de couro.   

Do aeroporto até o hotel vimos o intenso fluxo de carros na capital Argel e o aparente caos urbano em horário de pico. Assim como todas as demais capitais do mundo, Argel também sofre com o estrangulamento das ruas por conta de quantidade de carros. Se vê policiais por toda parte fazendo barreiras ou tentando organizar o trânsito. Aqui, policiais e militares gozam de status superior a outros profissionais.



Homens reunidos conversando

O país desenvolve grande atividade militar, especialmente nas cidades de fronteiras como é o caso de Tanmarasset, com vultosos investimentos do governo na indústria bélica e também na segurança pública.

Na década de 90, o país sofreu com o terrorismo, logo após experimentar o progresso e a riqueza proveniente do petróleo, até chegar à vertiginosa queda nos preços do barril, nos últimos anos.

O presidente Abdelaziz Bouteflika está no poder há anos e vive fazendo tratamento de saúde na França e na Suíça. Na Argélia, até pouco tempo atrás, chefes de Estado, embaixadores e autoridades ainda eram recebidos para audiências sob um forte esquema de segurança. Dizem que governa o país com mãos de ferro e percebi o quanto as pessoas o idolatram aqui e o quanto são nacionalistas.



Homem e sua ave de estimação

Em qualquer esquina ou edifício público se vê bandeiras do país ou fotos do presidente. Ninguém sabe com exatidão seu verdadeiro estado de saúde, se está vivo ou morto. Não existe a figura do vice-presidente, mas o Sr. Abdelaziz continua sendo respeitado e muito querido por todos os argelinos, apesar de sua ausência recorrente.

Essa mesma realidade de vigilância constante se vê em Tanmarasset, cidade que nasceu como posto militar avançado responsável por cuidar das fronteiras do Saara. Já no desembarque, somos “recepcionados” por meia dúzia de policiais que rapidamente nos pedem os passaportes.

Viajar sem visto ou sem um endereço definido para ficar é proibido na Argélia. Trabalhar sem permissão, então, negativo! Neste momento já comecei a sentir a vibração do lugar, a vigilância ostensiva e uma certa repressão que delimita os espaços de convívio social, o comportamento das pessoas e a maneira como elas vivem e se relacionam.



Bandeirolas enfeitam interior de um pátio

Não se pode fazer fotos ou filmar nas ruas,  especialmente se estiver próximo a um edifício público ou militar. Corre-se o risco de perder a câmera - o que por pouco não aconteceu comigo-, ou de exigirem que as fotos sejam deletadas antes de deixar o local, como também ocorreu no restaurante do hotel onde estávamos hospedados. Também não é costume local postar fotos pessoais nas mídias sociais. No lugar delas,  quase sempre são fotos de natureza, de lugares exóticos ou do artesanato local.

Este traço da cultura de “se esconder” ou de “esconder” o que se tem, fica bem evidenciado nas fachadas das casas, onde dificilmente pode-se enxergar além dos muros e portões robustos.

Um fato curioso foi que, durante uma confraternização militar no hotel em que estava hospedado, conheci um capitão do exército argelino e veterinário que, por dois anos, viveu em Goiás - olha que coincidência extraordinária-, trabalhando com compra e exportação de carne para o seu país.



O hábito de fumar é muito comum, inclusive entre mulheres

Este trabalho é extremamente sério para o povo argelino, uma vez que todo animal deve ser morto virado para Meca e nos modos utilizados nos países mulçumanos, caso contrário, não podem consumir a carne. O capitão lembrou das cidades de Palmeiras e Goiânia e ainda arriscou algumas palavras em português para se mostrar ainda mais simpático ao nosso grupo. Atualmente, o maior fornecedor de carne bovina para a Argélia é a China.

Desde a nossa chegada à cidade somos escoltados diariamente por viaturas policiais, para sair ou voltar ao hotel ou para irmos à escola, onde passamos a maior parte do dia. Na realidade, é uma proposta de segurança “furada”, que depois de 90 dias se mostrou um baita problema porque nos restringe (e muito) a mobilidade, o direito de ir e vir com liberdade e tranquilidade, ou porque perdemos pelo menos 1 (uma) hora, todos os dias, esperando a escolta.




Outro problema é que eles nos escoltam até os locais solicitados antecipadamente e raramente permanecem ali até a hora do nosso retorno ao hotel, algo sem lógica, já que o objetivo é a proteção total contra qualquer tipo de ameaça. Ficamos à mercê de qualquer tipo de situação porque os policiais nunca estão por perto e, quanto nos escoltam, fazem tanto barulho ligando a sirene ou buzinando que se algum terrorista quisesse agir bastava seguir o carro da polícia.

Entendemos que se trata de um protocolo que vem como ordem de instâncias superiores, por isso devemos segui-lo sem questionamento. Mas o fato é que estamos há meses experimentando esta falsa sensação de suporte policial e temos de prosseguir assim até o último dia, uma vez que os problemas poderão ser ainda maiores caso algo de pior aconteça conosco no dia em que decidirmos sair sem a escolta ou exigirmos sua dispensa. Portanto, mesmo frustrados por não termos a esperada liberdade e mobilidade, achamos melhor prevenir do que remediar.

Em Tanmarasset não se vê, atualmente, conflitos sociais, terrorismo, assalto, briga ou sequestro. Na década passada, a região recebia turistas de todo o mundo, especialmente europeus. Havia em torno de 350 agências de turismo na cidade e um sem número de profissionais liberais que ofereciam diversas opções de passeios e prática esportiva para aventureiros endinheirados.

Após 2009, com a crescente onda de sequestros e problemas de segurança, a cidade viu uma de suas principais fontes de renda secar. Os estrangeiros desapareceram e a época de ouro do turismo de aventura permanece apenas na memória das pessoas, com raros grupos aparecendo para explorar o deserto.

A dúvida em relação à segurança, a imaginação que nutrimos em relação aos árabes, o terrorismo e a opressão militar que imaginamos existir sem antes conhecer o lugar ou por acreditarmos demasiadamente na mídia internacional, tornou meus primeiros dias em Tanmarasset um exercício de coragem, autoafirmação e também de questionamento. Isso porque tinha a sensação de que deveria estar sempre “ligado no modo sobrevivência”, para ampliar minha atenção e acuidade visual, onde qualquer movimento ou olhar menos simpático poderia ser motivo para sair do local o mais rápido possível.

Nas primeiras horas no hotel, me senti como se estivesse em um filme de Hollywood, daqueles que assistimos vendo as cidades áridas e paupérrimas, sem asfalto ou calçadas, com pouquíssimas pessoas andando nas ruas, carros abandonados e destruídos ao lado de muito lixo e sujeira, num aparente caos social e de total insegurança.

Entrei para o quarto do hotel e ali fiquei deitado por uns 40 minutos tentando assimilar aquela nova realidade que vivenciaria pelos próximos 98 dias.

Havia muita insegurança devido à pouca informação que possuía do local, apesar de ter lido notícias sobre o país e de ter  conversado com um amigo que participou da etapa anterior à nossa do projeto de cooperação internacional. Me acostumar com o local era uma somente questão de tempo. Mas quem tem amor pela vida sabe que em momentos assim passa um filme na cabeça: família, amigos, trabalho, vida social, ausência dos filhos, outras oportunidades criadas e perdidas devido aquele projeto, a possibilidade de novos atentados na região (houve um em Mali, distante 400 km de Tanmarasset, no final de 2015), ou mesmo na cidade, sequestro, problemas de saúde, divergências com a equipe de trabalho etc.

Felizmente, em poucos dias já estava bem adaptado ao lugar, curtindo o frio da noite e da manhã (em torno de 8°) e me fartando com as comidas exóticas que vinha experimentando pouco a pouco. Outro fato muito particular e surpreendente é que, ao contrário do que poderia imaginar, a cidade acolhe com prazer os estrangeiros, com moradores extremamente gentis, atenciosos e educados.

Nunca estive em um lugar onde as pessoas fossem tão honestas e afetuosas como em Tanmarasset. O oposto de tudo que havia pensado sobre o lugar ou à cultura árabe, sobretudo porque ainda persistia na memória os tempos vividos na Itália, onde representantes árabes não eram bem vistos e invariavelmente estavam metidos em algum ato ilícito.

O que vivi ali nestes últimos 95 dias mudaram completamente minha imagem sobre o mundo árabe, sobre os argelinos e, principalmente, sobre o islamismo e o modo de vida capitalista que estamos acostumados a viver. Acho que hoje estou um pouco diferente e talvez um pouco melhor do que era antes de chegar na Argélia. Senti, mais uma vez, o quanto os pequenos gestos, o carinho e os detalhes da rotina familiar fazem a diferença em nossas vidas, e o quanto a companhia dos amigos e dos amores que nos fazem lutar, são imprescindíveis para vencermos todos os obstáculos que a vida nos impõe.

Sairei de Tanmarasset ainda mais feliz com a beleza de vida que tenho, com os amigos e colegas de trabalho que cultivei nos últimos anos e também com a certeza de que tenho uma família maravilhosa, filhos e esposa que alimentam a minha alma com amor e carinho. Tive a felicidade de poder conhecer um lugar onde o ter vale menos do que o ser, onde você vale pelo que é e onde as pessoas te respeitam como realmente é.

Aqui as pessoas tiram o melhor de você e te fazem refletir sobre a maneira de vida ocidentalizada que estamos acostumados a viver. A miséria material existe em diversas partes da cidade, porém a alegria, espontaneidade e espiritualidade das pessoas nos contagia e nos faz esquecer, ao menos por enquanto, da vida fútil e consumista que vivenciamos no Brasil. Está valendo cada segundo estar aqui, mesmo diante de tantas dificuldades.

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