M'zad, calçadão de uma área renovada da cidade; do lado esquerdo passa o rio da cidade que só aparece em 3 meses do ano | Todas as imagens: Rodrigo Balestra

M'zad, calçadão de uma área renovada da cidade; do lado esquerdo passa o rio da cidade que só aparece em 3 meses do ano | Todas as imagens: Rodrigo Balestra


Uma missão na capital do Saara

O designer e professor Rodrigo Balestra está em Tanmarasset, na Argélia, desde fereveiro, para uma missão oficial entre os governos brasileiro e argelino, treinando artesãos. De lá, nos conta como é a vida e os costumes da cidade fincada no centro do maior deserto quente do mundo

Tanmarasset, Tamanghasset ou simplesmente Tam, como lhe chamam os argelinos, está localizada no sul da Argélia, no centro do deserto do Saara (ou simplesmente Sahara: deserto em árabe), a quase dois mil quilômetros de Argel, capital do país. Rodeada pelas Montanhas Hoggar (ou Ahaggar), é a cidade mais isolada da Argélia. É também considerada a “capital do Saara”, devido à existência de água e solo fértil em quantidades abundantes e raras em climas desérticos. De qualquer parte da cidade se vê o monte Adrian - "o homem sem dente" - como os moradores o descreve ao apontar para o detalhe que parece uma fissura na boca de uma pessoa. A paisagem é constituída principalmente por rochas vulcânicas.




A Argélia foi colônia da França entre 1830 e 1962 e, por isso, mantém hábitos europeus como, a valorização do chá, os pratos intercalados durante as refeições e o ensino da língua francesa nas escolas. É um país muçulmano com raízes árabes de origem sunita, infinitamente mais aberto e complacente com outras culturas e hábitos contemporâneos da população do que países como o Paquistão, Irã ou Arábia Saudita, de origem xiita, mais conservadores e ortodoxos (leia-se extremistas) em relação, por exemplo, à mulher.



Tanmarasset é a principal cidade da Argélia touaregue, originalmente habitada pelos nômades que ainda vivem no deserto, e foi criada como um posto militar para proteger as rotas de comércio trans-sahariana, por isso, está repleta de quartéis e academias militares, uma verdadeira fortaleza em cada esquina. Abriga cerca de 200 mil habitantes (sendo a maior parte constituída por tuaregues). Suas temperaturas costumam ser altas e já se chegou a registrar até 47º por aqui. O clima é duro com forasteiros, como eu, acostumado à secura do planalto central, porém sem a poeira fina do deserto, a umidade abaixo dos 10% e o frio noturno.


Primeiro dia na Argélia, na capital Argel. Rua do hotel em frente ao Centro de Pesquisa Arqueológica



Eu, com o professor Antônio, intérprete Maria, coordenador Abdullah, alunos artesãos e diretor da Maison del Artisan de Tanmarasset, Monsieur Saidani



Cruzamento no centro de Tanmarasset



Rua no centro da cidade



Edifício militar

Quando cheguei à cidade, no final de fevereiro, a temperatura pela manhã estava nos 17º às 7:30h, 22º ao meio-dia, e 26º à tarde, baixando vertiginosamente para 8º na madrugada. Depois, em meados de abril, iniciamos as manhãs com temperatura média de 23º, chegando a 37º à tarde (abafado), voltando aos 20º a noite. No primeiros dias a pele e os lábios começaram a rachar por conta do frio e da secura, nos faltava ar, porque a altitude local chega a 1.320 m, e a umidade é baixíssima, sem contar a falta de chuva, que mesmo não sendo um milagre, pouco ocorre durante todo ano.



Vista de passagem urbana junto a lojas. Em vários locais da cidade esse tipo de construção está presente. As lojas não possuem vitrines, praticamente todas têm somente uma grande porta de metal, sem ventilação e iluminação natural, quase um bunker.

Entre junho e agosto, a cidade experimenta o fenômeno das águas, quando o rio local, que permanece seco praticamente todo o ano, recebe uma tromba d'água proveniente da chuva que cai na áreas mais altas da região. O alto volume de água o faz transbordar por três dias, em média, deixando, às vezes, um rastro de destruição e até mortes, tamanha a sua força.


Grupo de homens jogando dominó na placeta, a praça central da cidade rodeada de lanchonetes, lojinhas e de uma casa de banho somente para homens. É um local de encontro de
jovens que ali tomam chá, fumam, jogam dominó (apesar dos jogos de azar serem proibidos no islamismo) e batem papo




Rapazes tomando chá na placeta

Estamos no meio do deserto, portanto, muitíssimo distante de rios, lagos ou mar, sem chuvas constantes e sol de rachar mamona durante quase todo o ano. Por outro lado, dizem que no subsolo da região existe muita água e, por isso, não é preciso mais do que 25 metros de profundidade para se chegar ao lençol freático. Assim, é possível encontrar frutas cítricas, damascos, melancia, melão, tâmaras, amêndoas, cereais, milho e figos cultivados na região, apesar de toda dureza do clima e do terreno desértico.



Vendedor de chá na placeta (praça central), ponto de encontro dos homens no final da tarde



Mobiliário urbano

A paisagem é árida, repleta de arbustos e árvores baixas, plantas secas e pedra, muita pedra. As ruas - para minha surpresa grande parte asfaltada - são empoeiradas e sujas, de sacolas plásticas principalmente. Não existe um projeto de cidade, um projeto urbanístico ou um cuidado com a sua estética, tampouco não existe preocupação com a mobilidade das pessoas e acessibilidade de PNE's, e vi poucas pessoas com deficiência nas ruas e nenhuma em cadeira de rodas. A paisagem urbana é confusa, tosca, pouco agradável na maior parte da cidade.



Grupo de artesãos joalheiros locais e eu

Em grande parte da cidade não se vê calçadas, sinalização urbana ou um desenho lógico que nos leve a compreender, a primeira vista, a forma como as pessoas vivem, constroem e pensam a cidade. Noutras palavras, um caos total se comparada às cidades mais organizadas do Brasil.



​No aeroporto de Tanmarasset, esperando a polícia para fazer nosso escorte (escolta). A cidade é excessivamente vigiada, repleta de policiais e militares. Tirar fotos é um exercício de coragem e oportunidade



Estrada de acesso do aeroporto à cidade. Policiais à nossa frente nos acompanhando até o hotel

Um costume local, muito peculiar, é não deixar a vista o interior das residências e prédios comerciais. É quase impossível enxergar jardins privados, alpendres ou as fachadas das construções. O comércio local  é protegido por muros altos e portões fortemente trancados com cadeados robustos. O mesmo se vê nas casas, onde a tradição é construir portões altos e totalmente fechados, com arabescos ou motivos geométricos, verdadeiras fortalezas.



Mulher do Níger pedindo esmola

As vezes se vêem árvores que ultrapassam os limites do muro ou foram plantadas no passeio público, especialmente flamboyants e bougainvilles. Ao menos aqui eles valorizam muito a discrição, pois acreditam que ninguém precisa saber o que você tem. Não sei se é um comportamento local, dos argelinos ou também dos árabes, mas não se vê com frequência a mesma vaidade e exibicionismo que acostumamos a assistir no Brasil.



Edificação ao estilo árabe numa rua de intenso comércio, centro da cidade

A vida na cidade é bem mais simples, austera, sem as facilidades (e gastos) que consciente ou inconscientemente valorizamos no Brasil. Mas isso merece outro artigo para poder explicar melhor o modo de vida dos cidadãos de Tanmarasset.



Vista da Maison de l'Artisanat (Casa do Artesão)


A maioria dos moradores ainda mantém forte ligação com o deserto e periodicamente passam alguns dias ou semanas longe da cidade (num raio de 30 a 60 km), curtindo a "solidão" com a família ou amigos, mantendo o culto ao chá (thé em francês ou shay em árabe) e a boa música targui (terguie), um dos ritmos locais que ouvimos diariamente com nosso motorista Abdel Kader, que também nos apresentou o chaouie, o sahraoui, kabyle, bedoui, reggada e instrumental (aoud, piano, flauta). São ritmos oriundos das diversas etnias que lhes emprestam o nome e que são cantados em seus respectivos dialetos, distribuídos por toda região de Tanmarasset e no resto do país.

Um autêntico touareg, que  vive no deserto (nômade)

Ainda existem nômades vivendo no deserto e mantendo a tradição de fazer permuta (escambo) de mercadorias e itens de primeira necessidade. Geralmente, oferecem pele, carne e leite de dromedário fêmea, de camela ou de cabras; plantas e pedras que só encontramos por aqui, assim como souvenires de animais selvagens empalhados ou o couro destes para a produção de artesanato. Em contrapartida, buscam diesel, gasolina, temperos, remédios, utensílios domésticos, armas e munição, tecidos e outros artefatos necessários à rotina do deserto. Percorrem centenas de quilômetros todos os anos sem ter um local definitivo para viver ou criar os filhos. Essa é a cultura nômade, respeitada e admirada pelo povo argelino.


Churrasqueiro do restaurante Mai Nama (carne de boi e frango)

Tanmarasset é bastante populosa e recebe diariamente turistas de outros países africanos, sobretudo dos fronteiriços como Niger, Mali e Mauritânia, além de argelinos de outras regiões do país e alguns estrangeiros vindos da França, Rússia, Portugal, dentre outros. A maioria viagem a trabalho, poucas motivadas pelo turismo que, desde 2009, está praticamente paralisado por conta de problemas de segurança (assunto para outro post).



Vista do Hoogar, grupo de montanhas locais

Embora encontramos centenas de pessoas transitando nas ruas, 90% homens, não há registro de brigas, discussões, acidentes automobilísticos ou embriaguês, justamente porque no islamismo é considerado pecado ingerir bebida alcoólica ou qualquer outro tipo de ilícito. Por outro lado, o cigarro é permitido e o que se vê é um batalhão de pessoas fumando por toda parte, inclusive em locais fechados, restaurantes, hotéis, algo impensável no Brasil ou noutros países.




Aqui as famílias são numerosas e não é crime ou pecado o sujeito ter mais de uma esposa. O homem muçulmano pode se casar com até quatro mulheres, desde que dê o mesmo dote para cada uma delas, e ofereça as mesmas condições de vida às famílias. Não raro ouvimos histórias de homens com 15, 20 e até 40 filhos com suas quatro esposas diferentes.

É surreal para a realidade brasileira, mas perfeitamente normal em um país onde o modo de vida exclui, de certa forma, as dificuldades que nós vivenciamos, como o alto preço das escolas particulares (aqui a maioria é pública e gratuita), o culto aos shoppings centers, as facilidades (às vezes muito caras) da vida moderna ou a supervalorização do ter em relação ao ser. Embora a cultura e os valores deste povo pareçam estar muito distante da nossa, temos muito a aprender com ele.


(Nota do editor: Confira na próxima semana, mais da missão de Rodrigo Balestra na Argélia; o professor também desenvolve no país, parte do seu projeto de pesquisa de mestrado sobre design emocional  - a materialidade na produção de edificações e produtos locais, os padrões de acabamento que criam sinestesia e são muito valorizados pelo povo local 

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