O pintor Dalton Paula que acaba de ter confirmada a sua participação na 32ª Bienal de São Paulo | Imagens: Divulgação

O pintor Dalton Paula que acaba de ter confirmada a sua participação na 32ª Bienal de São Paulo | Imagens: Divulgação

Tem goiano na bienal

The Book entrevista Dalton Paula, que acaba de ser convidado para expor na 32ª Bienal de São Paulo. Pintor utiliza capas de antigas enciclopédias como tela para representar temática dos negros

Definitivamente, o ano de 2016 está sendo bem movimentado para o artista goiano Dalton Paula, 33. Em março, ele fazia uma pesquisa artística no Instituto Superior de Arte, em Havana, encerrada com performance e exposição, em parceria com o projeto Ocupa Brasil. 
De volta, expôs mostra individual no Solo Project, da Sé Galeria, na 12ª SP – Arte, aberta em 7 de abril com o anúncio de seu nome como ganhador do Prêmio Illy Sustain Art – no valor de R$ 20 mil –, concedido a novos talentos escolhidos dentre brasileiros natos com a idade máxima de 35 anos.

Mas, novas e ótimas notícias ainda estavam por vir. A satisfação com o prêmio foi duplicada pela confirmação de sua participação na 32º Bienal, intitulada Incerteza Viva, que deverá acontecer no período de 10 de setembro a 12 de dezembro. Na Bienal, Dalton apresentará o trabalho A Rota do Tabaco, resultado da pesquisa em Piracanjuba, Havana e Cachoeira, em narrativas visuais ritualísticas, sociológicas e políticas. O suporte deverá ser cerâmica, mas ainda está em processo de pesquisa.



Na série A Cura, pintura sobre capas de livros, Dalton Paula coloca os negros como autores e protagonistas 

O reconhecimento pode ser explicado pela combinação de talento e persistência cultivados pelo artista, que começou copiando com carbono os desenhos dos mangás que lia na adolescência, para colori-los em seguida. As primeiras aulas de pintura foram em 1994, na Escola de Artes Visuais do Museu de Arte Contemporânea (MAC), no Parthenon Center, onde encontrou um ambiente muito dinâmico, que o motivou a prosseguir e cursar, mais tarde, Artes Visuais na Universidade Federal de Goiás (UFG).



Obras de Dalton Paula, que utiliza enciclopédias como suporte para suas pinturas

Nessa época, seu interesse eram as festas populares, como a congada, a catira, a Folia de Reis, presentes num universo sertanejo/interiorano que o encantava. Desde o começo, todos os personagens que ele retratava eram negros, num trabalho político que coloca os negros como autores e protagonistas. "Há muitos problemas na representação do negro na sociedade brasileira”, afirma o pintor, que também trabalha como bombeiro em Goiânia, desde 2004.

A mesma convicção o levou, em 2009, às fotografias das performances de Corpo Silenciado, nas quais se colocava à frente de muros cuidadosamente escolhidos, em situações “de silenciamento, sufocamento e enclausuramento”. Para Dalton, esse corpo silenciado era um corpo enfermo e representá-lo apontava para uma “cura simbólica”.




Este trabalho foi fundamental para sua participação na terceira edição da residência artística Muros: Territórios Compartilhados, em Salvador, em 2013, ocasião em que conheceu a galerista Maria Montero, que namorava um dos residentes e inaugurou a Sé Galeria em abril de 2014 com exposição individual de Dalton.

A parceria com a galeria, que o representa com exclusividade, já rendeu três exposições individuais, boas vendas e contatos interessantes, como o de Adriano Pedrosa, diretor artístico do Museu de Arte de São Paulo (Masp), que o convidou para a mostra Histórias Mestiças, no Instituto Tomie Ohtake, ainda em 2014, possibilitando a conquista de mercados como Nova York e Paris.



O pintor Dalton Paula em seu ateliê em Goiânia 

A ideia de pintar personagens negros nas capas de enciclopédias surgiu da percepção da enciclopédia como “um instrumento de conhecimento hegemônico, eurocêntrico e erudito”, um veículo de saber do qual esses personagens negros geralmente eram excluídos. Assim, trazer personagens populares para a capa de uma enciclopédia seria um “gesto político”, que reafirmava um paradoxo, “contemplando uma diversidade de representação, de ocupação de lugares dignos de representação do corpo negro”.

A pesquisa realizada com foto pintura, no sertão do Cariri, em 2010, também foi um subsídio para esta questão, pela possibilidade de substituição e de modificação dos personagens, bem como a pesquisa com ex-votos – objetos que representavam a graça alcançada, depositados pelos fiéis junto aos santos de devoção – que encerra também a ideia de “cura”, de “acreditar que se reverta uma situação”. A continuidade do tema também pôde ser vista nas séries narrativas de Cura A, Cura B e Santos Médicos, no Solo Project, nas quais mostrou rituais de cura e fez releituras de imagens dos santos Cosme e Damião, do período Gótico ao Renascentista, além das cinco telas inspiradas em ex-votos.

Embora sua projeção atual se dê em São Paulo, Dalton começou a expor na capital goiana em 1998, inicialmente na Fundação Jaime Câmara, por meio do concurso Novos Talentos. Expôs também no Museu de Arte Contemporânea (MAC), no Museu de Arte de Goiânia (MAG), no Centro Cultural da UFG, na Galeria da Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás (FAV).

Fora do Estado, aconteceram exposições em Piracicaba, Brasília, São Paulo, Santo André, Rio de Janeiro, Campo Grande, Recife, Fortaleza e Novo Hamburgo, e a seleção, dentre 1.770 inscritos no projeto Rumos Artes Visuais – Itaú Cultural (2011/2012) garantiu ainda maior visibilidade e legitimação a seu trabalho, que compreende pintura, vídeos, objetos, instalações e performances.

 Premiado também em 2008 na Bienal Naïfs do Brasil, no SESC de São Paulo, e na Bienal de Art Naïf de Piracicaba - SP, no Salão de Arte Contemporânea de Jataí, Goiás, em 2010, e, em 2012, na 4ª Edição do Salão de Arte de Mato Grosso do Sul, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, e no XXXVIII Salão de Arte Contemporânea Luiz Sacilotto, em Santo André, São Paulo, Dalton segue produzindo um trabalho centrado no universo popular, cuja intencionalidade se desvenda por meio de sugestões, de indicações e de metáforas, num maneirismo já reconhecido por alguns críticos.

O artista afirma que é movido pela questão política, pela contribuição que pode deixar como artista e como pesquisador, ressaltando que sua grande função é discutir o papel do negro na sociedade e que, como “a Bienal circula no mundo, é um evento internacional, então (ela) está ampliando o ecoar dessa voz, que parte de coisas bem individuais com o objetivo de atingir o coletivo”.

Conciliando sua produção artística com o trabalho de bombeiro, a conclusão de pesquisa artística em Cachoeira, na Bahia, que deverá acontecer na segunda quinzena de maio, comissionada pela Fundação Bienal de Artes, e a produção destinada à Bienal, Dalton ainda planeja se inscrever para o mestrado em Arte e Cultura Visual (UFG) e encontrar uma residência maior para ele e a mulher, Conceição de Maria, a Ceiça, que está concluindo o mestrado em Comunicação, na UNB.

É, o ano vai continuar movimentado. E, claro, em se tratando de Dalton Paula, com possibilidade de muitas e boas surpresas.

3 comentários

Virginia

Profisssional Bombeiro Militar competente, ser humano fatástico, amigo devotado, artista genial, merece tudo de bom que está acontecendo em sua vida pois é fruto de muito trabalho e dedicação. Parabéns!

Noé Luiz Mota

Dalto Paula eu fico muito feliz quando meus amigos estão em evolução parabéns Marilia nota 10 pela matéra

Helena Vasconcelos

Parabéns Dalton vc é brilhante te admiro e desejo a vc e familia muitas alegrias.Receba meu abraço.Helena
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