Noé Luiz da Mota, o senhor da Catedral das Artes: reconhecido ponto de cultura foi construído pelo artista | Todas as imagens: Edgard Soares

Noé Luiz da Mota, o senhor da Catedral das Artes: reconhecido ponto de cultura foi construído pelo artista | Todas as imagens: Edgard Soares

O senhor da catedral

A história do artista que construiu um espaço cultural com as próprias mãos e persevera em viver, fazer e divulgar a arte

A figura alta e magra, de cabelo e barbicha brancos, fala mansa e risadas leves e breves pontuando seus causos, declarações e divagações, lembra um Dom Quixote, no tipo físico e na persistência. A calma que transmite, no entanto, é só na aparência. Aos 67 anos, Noé Luiz da Mota cumpre uma rotina acelerada de compromissos.


Noé no interior do seu "castelo", que tem um quê de surrealismo

Levanta bem cedinho e começa a se movimentar: faz esculturas, pinta, resolve questões relativas à Catedral das Artes, ao cineclube, destrincha burocracias, ajuda os amigos, prepara exposições de artistas, confere o site, vira trabalhador braçal (no momento, constrói uma torre de proteção na catedral), busca crianças para as oficinas. Em constante movimento, Noé definitivamente não aprova quem fica de beiço caído, só olhando. Diz o que pensa, cobra atitude, vai atrás do que quer. Persevera.



A Catedral das Artes abriga uma galeria de arte e abre espaço para  novos talentos

Nascido em Capelinha, município de Itaberaí, em Goiás, desde cedo começou a lidar com a arte, sem mesmo saber que o que fazia podia ser chamado de arte. Ainda menino, fazia peças de argila, desenhava figuras de animais no chão de terra, fazia sulcos na lama, criando figuras que ele chamava de retratos.



Somente mais tarde, quando a família se mudou para a Cidade de Goiás, é que começou a trabalhar como artesão, fazendo entalhes e carros de boi, que vendia aos turistas. Em 1968, mudou-se para Goiânia, com o objetivo de prestar vestibular para Engenharia, e começou a trabalhar como auxiliar no ateliê da escultora Maria Guilhermina, de quem já havia sido aluno num curso de extensão em artes da UFG. 



Visão geral da construção que tem a forma de um cupinzeiro

Gostou tanto, que desistiu do curso, assumindo-se definitivamente como artista plástico. Em 1970, fez sua primeira exposição individual. Na época, não se falava muito em arte e existia apenas a Galeria Azul, de Maria Guilhermina. Com a escultora, montou o Centro de Artes no local onde reside até hoje com a mulher, no setor Santa Genoveva.


A Catedral das Artes, conveniada com o Ministério da Cultura, já produziu cerca de 15 documentários, e o filme Museu Macabro"

De lá para cá, ganhou vários prêmios, entre eles o Grande Prêmio de Arte e Pintura de Belo Horizonte e o Troféu Hoje, da Rede Globo, e homenagens como o título de Baluarte de Desenvolvimento Nacional, pela Academia Brasileira de Letras, Arte e História de São Paulo. Foram várias exposições em território nacional e também nos EUA, no Chile e na Itália. Durante muito tempo sobreviveu apenas da arte.


Noé posa na entrada do espaço cultural

Em 1988, com recursos próprios, iniciou a construção da Catedral das Artes. Sem projeto, num caráter de obra de arte, sua arquitetura lembra um cupinzeiro. O interior da construção, com acabamento feito de retalhos de azulejos, lembra a obra do catalão Antoni Gaudí, e reflete um quê de surrealismo. 

Aberta ao público em 1991, com repercussão internacional, a Catedral das Artes foi criada com o objetivo de divulgar o artista goiano, lançar novos talentos e formar um acervo da memória das artes plásticas em Goiás.


O artista e uma de suas telas de grandes dimensões

Depois de 24 anos, já há um mapeamento de obras e artistas goianos, exposições permanentes, cineclube e oficinas para alunos da rede pública, além de uma biblioteca de literatura goiana, numa proposta original de divulgação da diversidade cultural.


Detalhe da janela da Catedral das Artes

A Catedral das Artes, conveniada com o Ministério da Cultura, já produziu cerca de 15 documentários, e o filme Museu Macabro, produzido e dirigido por Eudaldo Guimarães e apoiado pela Catedral, com atuação de Noé, foi inscrito no Festival de Cinema Independente de Munique e exibido em salas da Alemanha.


Amplas janelas permitem a entrada de luz natural aos ambientes do museu


Finalizada em dezembro de 2014, a película foi apresentada em caráter experimental na Catedral das Artes, em Goiânia, e na cidade de Santo Antônio do Descoberto. Em fase final, a obra O Fantasma de Gongomé, do mesmo cineasta, vai ser lançada este ano, continuando a trilogia iniciada com Museu Macabro.


Noé


A 2ª Bienal Infanto-Juvenil aconteceu em outubro passado, em comemoração ao aniversário de Goiânia e, em dezembro, foi exibida na Catedral das Artes a peça Sertão Suassuna, realizada por alunos do curso de Artes Cênicas da UFG e dirigida pela professora Natássia Garcia, e a performance cultural ROÇAdeira. Tantas atividades já renderam ao artista homenagem do Conselho Estadual de Cultura.

Segundo Antonio da Mata, diretor do Museu de Arte de Goiânia e produtor cultural, Noé é um dos pioneiros da arte em Goiás e a transformação da Catedral das Artes em Ponto de Cultura, credenciado pelo Ministério da Cultura, é um reconhecimento mais que devido pelo seu trabalho ímpar e pela dimensão de sua arte, forte e original.

"Produzir arte sempre foi uma questão de sanidade mental, uma atitude cultivada sem questionamentos financeiros"

São 45 anos, desde a primeira individual, dedicados à arte, muita experimentação, leitura, um conhecimento profundo de todos os grandes nomes da pintura. Entende muito e exerce com propriedade a função de curador. Noé afirma que toda pessoa que não tem um conhecimento ou um autoconhecimento, se perde no contexto de sua produção, mesmo realizando uma ou outra boa obra, o mesmo acontecendo em qualquer outra área ligada à cultura.


"Produzir arte sempre foi uma questão de sanidade mental, uma atitude cultivada sem questionamentos financeiros, de forma livre e ousada", ressalta. Acredita que existe, por parte das escolas, um desconhecimento do valor terapêutico da arte no comportamento dos alunos, que deveriam ser livres de qualquer tipo de direcionamento para se expressarem.



Mesmo considerando que o florescimento da arte em Goiás nas décadas de 80 e 90 — quando se podia comparar produção, venda e espaço artístico com o que acontecia na música com os grandes compositores baianos — tenha sofrido um retrocesso em relação aos espaços oferecidos aos artistas e ao comércio de arte, reconhece que estão surgindo novos talentos que estão conquistando respeito nacionalmente. Concorda também que sobreviver da arte é difícil, mas é possível, desde que o artista conte um agente comercial e que possua uma vivência artística.


Noé traduz em sua obra o contexto do Cerrado, com bois, couros esvaziados, casarios, pássaros e arames

Ao lado da arte, Noé lida com a terra, a mesma de sua infância. Mantém suas raízes. Outras raízes, bem reais, aparecem brutalmente arrancadas das árvores nos quadros que denunciam a destruição ambiental. Essa é a temática sempre presente em telas de grandes dimensões. O contexto é o Cerrado, numa proposta surreal, preenchido por bois, couros esvaziados, casarios, pássaros e arames, no qual tece um painel das “conveniências e inconveniências” da ação humana no meio ambiente.

Retrata também lembranças da infância, como nas ocasiões em que era espetado com o ferrão da vara que o pai usava para tanger a boiada, para que andasse “mais ligeiro”. Ou da vez em que a mãe, percebendo que ele soltava os pássaros que apanhava em uma arapuca, fez com que ele matasse um deles.

À inescapável pergunta sobre seus planos, responde que quer continuar sempre, produzir, divulgar, construir um museu, o seu museu. Resume tudo numa só palavra: movimentar. E movimento, claro, é vida, traço e rabisco. Arte.

8 comentários

Anna Aquino

Um artista sensível, conciente e realizador de seus sonhos, por ser vizinha de rua, tive o privilégio de vivênciar a construção, brincar no espaço e estar presente na inauguração! Parabéns Noé, exemplo de vida!

Noé Luiz

Muito obrigado. Fotos ótimas e ótimo texto. Parabéns à editora pela excelente revista.

Elma Carneiro

Muito boa a matéria que expressou bem o mundo das artes de Noé Mota de quem fui aluna na escola de Maria Guilhermina. Noé é isso mesmo, um artista inquieto e multifuncional. Sua Catedral é uma construção única, arquitetada e construída por ele mesmo. Obrigada Noé, por suas aulas e orientações quando da última vez que fui visitar esse Senhor da Catedral que pensa e vive com toda liberdade que o ser humano merece para criar. Um grande abraço.

Claudia Jeanne

Parabéns Noé Mota, sua perseverança e força me deram um empurrão em busca dos meus sonhos. Parabéns.

FRANCISCO LILLO

A REPORTAGEM NOS MOSTRA UMA PESSOA SENSÍVEL E UM ARTISTA COMPROMETIDO COM A ARTE E A COMUNIDADE GOIANA. GRANDE NOÉ, E UM PRAZER FAZER PARTE DE TEU ENTORNO E CONTAR COM TUA AMIZADE.

Sidney Dutra

Ao conhecer o artista Noé ...o que mais me surpreendeu é sua capacidade de sempre estar disponível para os amigos artistas....sempre pronto a dar um dica ou oferecer algum tipo de apoio para viabilizar a arte.

Terezinha Divina de Morais

Estou curiosa em conhecer o Noé, somos amigos do face e falamos por telefone, breve terei oportunidade em conhecê-lo pessoalmente, tenho notado que é um artista de bem com a vida e um espírito muito altruísta.

jose da silva ferreira

em um encontro cineclubistas goiano dia 28,29 de janeiro de 2017 eu picho ferreira estudante de artes e cultura de Acreúna goias estivo o prazer de conhecer o líder e pioneiro na cultura de goias Noè o maior líder cultural
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