Maria Elvira Crosara, dona da marca Anunciação, há 17 anos no mercado: moda autoral e reconhecimento no exterior | Todas as imagens: Edgard Soares

Maria Elvira Crosara, dona da marca Anunciação, há 17 anos no mercado: moda autoral e reconhecimento no exterior | Todas as imagens: Edgard Soares


Força fashion

O mercado de moda goiano se fortalece com incentivos públicos e ganha identidade com a chegada dos coletivos, a criação de novos cursos superiores e o trabalho inovador de designers

A moda em Goiás vai muito bem, obrigada. Com inovações como a aquisição de máquinas de corte de última geração, por meio dos Arranjos Produtivos Locais (APLs) coordenados pela iniciativa pública, a criação de novos cursos de Design de Moda, coletivos que reúnem várias marcas locais em espaços bacanas, apoio governamental e de entidades privadas e estilistas originalíssimos, o Estado ganha identidade, imprime seu DNA em território nacional e conquista espaço no mercado externo.


A festejada designer de acessórios Eleonora Hsiung, em seu showroom, em Goiânia

“Goiás tem vocação para a confecção”, destaca José Divino Arruda, presidente do Sindicato do Vestuário do Estado de Goiás (Sinvest), enumerando as oito mil indústrias registradas do segmento, numa economia em que há mais contratações que demissões, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), e um crescimento de mercado, favorecido desde 2010, com a redução do ICMS para empresas que vendem internamente seus produtos e com a isenção deste imposto para empresas que exportam. O otimismo de Arruda o leva a crer também que as recentes mudanças na economia do País podem levar o consumidor a substituir os eletrodomésticos por peças de vestuário ao comprar presentes, consolidando ainda mais o negócio.


Kleyson Bastos, 33, grande nome da nova geração de estilistas autorais

Foi de olho neste setor de economia dos municípios que a Universidade Estadual de Goiás (UEG) criou, em 2015, o curso de Design de Moda em Jaraguá – um dos maiores polos de confecções do Estado, com 431 empresas da cadeia produtiva, segundo dados da Junta Comercial de Goiás (Juceg)–, com o intuito de formar profissionais que possam contribuir para a criação de uma identidade própria nas empresas de vestuário. A Universidade Estácio de Sá, também motivada pelo mercado em ascensão, passou a oferecer este ano o curso de Design de Moda em Goiânia.

Coletivos, como o Centopéia, que surgiram da necessidade de juntar profissionais de áreas diversas e ideias semelhantes dispersos pela cidade, no objetivo de reduzir custos, fortalecer a produção local e criar uma identidade, também incentivam a moda goiana, com cursos para os profissionais do setor, organização de feiras e bazares e apoio na produção de desfiles, traçando o desenvolvimento de negócios criativos e utilizando planejamento estratégico de comunicação e inovação. 


Fernanda Manço cria acessórios inspirados na cultura brasileira, nas formas da natureza, que “pousam” delicadamente no corpo

O coletivo abriga também a Moderia, uma empresa de comunicação voltada para a moda, focada na estrutura do negócio e na potencialização de marcas. Paula Del Bianco, designer de moda e gestora de planejamento estratégico do coletivo, diz que a moda autoral em Goiás está em desenvolvimento, com profissionais que já estão tendo reconhecimento e alcançando outros mercados fora de Goiânia, mesmo esbarrando em dificuldades como atingir uma produção de custo competitivo, neste período de recessão. “A crise econômica atual pode ter um reflexo positivo na moda, levando a um consumo mais consciente, com uma preocupação maior com a durabilidade e a qualidade”, afirma.

E quando se fala em coletivos, chega-se à Casulo Moda Coletiva, que fica num espaço amplo e moderno, onde abriga loja, ateliê de moda unissex e salão de beleza. A loja trabalha com 30 marcas, daqui e de outros Estados. Maiene Horbylon, 26, coordenadora de projetos e ações da Casulo, reforça o foco na exclusividade, considerando que já existe um mercado em construção para a moda autoral, formado por um público jovem, atualizado, interessado no consumo consciente e na valorização da produção local. “A curadoria da Casulo nas marcas comercializadas cria um vínculo entre elas, gerando uma identidade e garantindo a qualidade dos produtos”, explica  ela.


Alzira Vieira cria vestidos de crochê em fio de seda para a marca homônima lançada em 2011. Luana Piovani se casou com um vestido assinado pela designer


Metropolitano e do Projeto Economia Criativa, do Sebrae, e assina cursos de moda em parceria com o Coletivo Centopéia. A venda e a divulgação da Casulo são feitas via redes sociais e pelo site. Com participação em eventos na Capital, como Bananada, Vaca Amarela, Picnik, Morar Mais Por Menos, e em outros Estados, a Casulo é um exemplo do bom resultado de parcerias e inteirações no fortalecimento da moda goiana.

Parceria também é a palavra-chave para Eduardo Alcântara, gerente do Sebrae, que informa um aporte de R$ 2,7 milhões em investimentos nos projetos de desenvolvimento da moda em Goiás, com ações de capacitação em gestão, capacitação e adequações tecnológicas, missões de prospecção e conhecimento nacional e internacional, consultoria e participação em feiras de moda, considerando a existência de 13,8 mil pequenos negócios, englobando gemas e joias, couro e calçados e têxtil e confecções. “A união de empresas num objetivo comum é fator indispensável no desenvolvimento da moda goiana, assim como as negociações entre grandes e pequenas empresas, para viabilizar a ampliação e participação dos pequenos negócios nas cadeias de valor das grandes empresas e novos mercados”, avalia.

Dentre as ações de desenvolvimento da moda goiana, o Sebrae tem projetos para a moda íntima em Taquaral e Pontalina – municípios que já participaram de feira de moda na França, apoiada pela instituição–, projetos focados nas empresas da região metropolitana, desenvolvimento dos APLs – que permitem aos confeccionistas utilizarem máquinas de corte adquiridas pela Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação–, com verba do governo federal em Jaraguá e região, e projetos de encadeamento de produção da Hering, que tem mais de 80% de sua produção executada em Goiás. 

Na promoção e desenvolvimento da cadeia da indústria da moda, o Sebrae ainda realiza e apoia iniciativas como o Inova Moda, em parceria com o Senai; o Fórum de Inspirações, com a Associação Brasileira de Empresas de Componentes para Couro, Calçados e Artefatos (Assintecal); além de  participar do São Paulo Fashion Week, com o In-Mod.

A instituição também tem projeto para um futuro bem próximo. “A meta é fazer com que os negócios de moda sejam inovadores e competitivos, para alcançar uma fatia mais expressiva do mercado nacional e se firmar no mercado internacional”, afirma. Para marcar ainda mais a identidade da moda goiana, Eduardo sugere a iconografia de Goiás, descrita e ilustrada em manual aplicativo editado pelo Sebrae, disponível aos criadores.

 A identidade da moda goiana caminha a passos largos, tanto nas peças quanto nos acessórios. Kleyson Bastos, designer de moda, 33, é um grande nome dessa nova geração de estilistas autorais. No mercado desde 2008, ele começou fazendo moda feminina, com a inclusão de uma ou outra peça masculina. Em 2012, depois de cinco coleções, reduziu o nome da marca para Bastos e apostou numa moda com um olhar mais apurado para tendências, lançando a primeira coleção masculina com estampas de lenços, acompanhada de vídeo e vendida na Casulo Moda Coletiva.

“A CRISE PODE TER UM REFLEXO POSITIVO, LEVANDO A UM CONSUMO MAIS CONSCIENTE” |  Maiene Horbylon

O fato de Caio Braz, apresentador do GNT Fashion, usar uma roupa da coleção chamou a atenção para o seu nome e, no mesmo ano, foi convidado para a primeira edição do GoFashion, participando do evento também em 2013. Em 2014, a adesão ao e-commerce levou a um aumento nas vendas, conquistando clientes de São Paulo e Porto Alegre. “A construção da marca Bastos criou uma identificação com um consumidor interessado em conforto, durabilidade e exclusividade”, diz o designer. Com base nesses princípios, Kleyson aposta na estamparia exclusiva e em tecidos como algodão, linho e viscose, num estilo que combina street wear, alfaiataria e cortes minimalistas. Na próxima coleção a novidade será uma moda não gênero, com peças que podem ser usadas indistintamente por homens e mulheres, estampadas pelo artista Ritchelly Oliveira. 

Listada no Atlas Of Fashion Designers, que reúne grandes designers do mundo todo, a designer de moda Maria Elvira Crosara lançou a marca Anunciação em 1998, com a proposta de uma roupa feminina original, durável, confortável e atemporal. Com estamparia exclusiva da ilustradora colombiana, radicada em Barcelona, Catalina Estrada – que também estampa para o estilista britânico Paul Smith–, as peças têm acabamento impecável e podem receber detalhes delicados, como o bordado richelieu em cores variadas e o crochê, em tecidos como linho, seda e algodão.

Com clientes como a cantora Fernanda Takai, da banda Pato Fu, e integrantes da companhia de dança Quasar, a marca é vendida para o Brasil e exterior por meio do e-commerce e também na loja-ateliê, um prédio charmoso e antiguinho no Setor Sul, onde também são realizados os dois bazares anuais. “A Anunciação deixa a mulher especial”, afirma Maria Elvira, que, depois do sucesso da última coleção, vendida na loja antes de chegar à internet, fará novo lançamento com 40 estampas e 40 modelos em 30 looks diferentes.

Frutos de rigoroso estudo de dimensões e ergonomia e de pesquisa contínua do universo cultural brasileiro e de formas da natureza, os acessórios de Fernanda Manço, 36, parecem “pousar” delicadamente no corpo. Formada em Design, Fernanda já desenhava acessórios de moda há muitos anos, mas só em 2012 lançou a marca que leva seu nome, sistematizando as pesquisas e introduzindo novos materiais, como couro bovino texturizado e metais banhados a ouro, sem níquel, numa produção de técnicas arrojadas, como o corte a laser e a jato d’água, alcançando um resultado de alta qualidade nos acessórios, acompanhados por Certificado de Autenticidade.

O curso de Análise de Ciclo de Vida do Produto, realizado em São Paulo e centrado em questões ambientais, apurou ainda mais seu olhar do produto como um todo. Na execução das peças, os cortes são pensados de modo a não gerar resíduos inúteis, sendo reaproveitados em outro produto. Com a brasileiríssima linha Plumária, feita com retalhos de chita, recebeu menção honrosa na 4ª edição do Prêmio Design da Terra, em 2010. 

“O design autoral, livre de tendências, possui mais identidade, criando um laço de afetividade entre produto e consumidor”, explica Fernanda, que foi selecionada pelo Sebrae para participar do São Paulo Fashion Week deste ano.  No momento, os acessórios de Fernanda Manço são comercializados em seu ateliê, na Casulo Moda Coletiva, em sua página do Facebook e no Instagram. 

Formada em Direito, com pós-graduação em Fashion Design pelo Istituto Europeo Di Design, Eleonora Hsiung, 35, cria acessórios impactantes com materiais não convencionais, como brita, madeira de demolição, fio encerado, couro e latão banhado a ouro ou prata. No sofisticado ateliê – que também comporta escritório, oficina e showroom–, aberto em 2009, a liberdade na escolha de materiais, no formato, na apresentação e no relacionamento com o cliente configura o que ela denomina de joalheria contemporânea. “Já existe um consumidor em formação, com a percepção de que o acessório não se reduz a apenas um ornamento, mas contém uma série de significados construídos ao longo do processo criativo”, avalia Eleonora, cuja produção ganhou fama nacional e está presente no closet de muitas celebridades.

As peças de suas coleções, que se desdobram em pockets collections, não saem de linha, e um brinco de uma pode ser usado com um colar ou um bracelete de outra, em perfeita e harmoniosa interação. Ou partes de peças de coleções anteriores podem se juntar para formar um novo acessório. As vendas se dão no ateliê, por e-mail, nas redes sociais, lojas virtuais, como a Farfetch e, em breve, inaugura loja no Shopping Flamboyant. Com trabalhos executados para a Schutz, Acquastudio e Alcaçuz e participação em eventos como o Vogue Fashion Nigth Out, Eleonora recusa o fasf fashion e batiza suas coleções com nomes expressivos, como Tour de Force e Ceci n’est pas.

“O DESIGN AUTORAL CRIA UM LAÇO DE AFETIVIDADE COM O CONSUMIDOR" | Fernanda Manço

A estilista goiana Alzira Vieira é outra representante desta safra de criadores autorais que aposta no desejo de exclusividade do consumidor ao confeccionar vestidos e outras peças de crochê em fio de seda. A marca homônima, criada em 2011, tem sua produção executada por crocheteiras habilidosas e é comercializada por meio do site, de redes sociais e em eventos de moda. Sem investimentos em marketing, de forma espontânea, a marca já conquistou celebridades como Patrícia Poeta, Marina Lima, Guilhermina Guinle, Camila Rodrigues e Luana Piovani – que se casou com um vestido Alzira Vieira–, e é citada com entusiasmo no blog de Lalá Noleto. “Cada vestido tem o status de uma joia, por se tratar de uma peça totalmente artesanal, única, durável e indiscutivelmente bela”, afirma a estilista. Com participação confirmada este ano em pop-up store no Fashion Mall, no Rio, Alzira planeja a instalação de um ateliê com showroom, para atender a clientela. Santo de casa não faz milagre? Faz mesmo, não. Santo de casa esbanja talento, acredita no que faz, abre as asas e alcança voos cada vez mais altos.

| Matéria publicada na edição 6 da revista The Book

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