Marília Fleury

Marília Fleury

Marília Fleury é designer, blogueira e escreve nas horas insones

Fogão

Sem fogão. Por uns dois dias, só. Ou mais, até procurar, achar, comprar, entregarem, pedir o gás, comprar a mangueira e instalar. Lembrei da Pinky Wainer, filha da Danuza, que tem um apartamento lindo com uma vista maravilhosa, mas não tem nem mesmo um microondas, porque vai que alguém resolve esquentar alguma coisa, vai que sai um almoço. Mas eu não sou a Pinky Wainer. E acho estranho ficar sem fogão, dá aquela impressão de provisório, de acabei de chegar por aqui e não sei por quanto tempo vou ficar.


Minha filha se mudou novamente e não tinha mais fogão. Morando com uma amiga, estavam cozinhando num fogão à lenha. Algo que combina super bem com uma volta às origens, um estilo de vida mais alternativo etc. Como cada um sabe de si, pensei em deixar pra lá. Só pra ela ver o que é bom pra tosse. Mas não sou boa em deixar as pessoas perceberem o que é bom pra tosse. Aliás, nunca entendi esse ditado. O que é bom pra tosse, como assim? De onde saiu isso, qual é a origem? Enfim... mandei meu fogão e preciso comprar outro.

Tati Quebra-Barraco me faz passar longe, bem longe da marca Dako, por uma associação inevitável. O pior (?) é que dizem que o forno é bom. Solução? Aproveitar as letras D, A e K e adesivar o restante: Danke*. Mas não se sabe mais, hoje em dia, se dá para confiar nas marcas antigas, na tradição, na propaganda (só juro fidelidade mesmo ao Toddynho, que nunca mudou de sabor)... Dei de cara com marcas que eu nem sabia que existiam. Depois de uns três dias, decidi comprar um daquela marca que já detona todos os outros no slogan: “Não é nenhum...”.

Efeito ou não da crise, os fogões de quatro bocas diminuíram de tamanho, parecem quase fogõezinhos de brinquedo. Ficou sobrando um espaço considerável entre as duas bancadas, e uma vizinha diz que o fato de ser menorzinho remete ao estilo vintage e que em Paris... E, se usam assim em Paris, já nem discuto: as panelas vão trombar umas nas outras e só poderei assar tortinhas, bolinhos e pãezinhos de queijo, mas.


O preço do gás me assustou: como ele poderia ter passado de 35 para 42 e saltado olimpicamente para 60 reais? Comentei ingenuamente com o entregador que, gentilíssimo, ainda saiu correndo para comprar o registro (imagina se minha cabeça cheia de nuvens e algumas trovoadas se lembraria desse detalhe?!), que o valor era absurdo e “imagine para quem ganha salário mínimo e tem um monte de filhos?!”. E ele: “Meu caso”. Putz. Mas riu, quando contou que pretendia trocar o carro por um mais velho para ficar livre do IPVA, e a mulher lascou a notícia de que agora só depois de 15 anos os carros ficariam livres do IPVA. Só rindo mesmo. Ou chorando. Ou indo embora. E que país é este, hein, Affonso Romano de Sant’anna?

E, de novo, cá estou com um fogão novo. E, como tudo o que a gente compra, demora um tempinho para a gente se acostumar e ter aquela sensação de posse. Tudo o que vem a ser da gente demora um pouco para ser realmente, dá para entender? De qualquer modo, uma casa, para mim, só é casa com um fogão. E não que eu seja exatamente uma fanática, mas sou daquelas que desenforma o arroz para ficar bonitinho e leva pratinhos nas vizinhas. E ainda prepara comida para o filho levar na bagagem de mão. Se isso é jequice, não sei, mas é costume, e costume prescinde de explicações e questionamentos. E quem bolou aquela publicidade da Singer sabia o que estava falando: Costurar é um ato de amor (eu que o diga!). E cozinhar também.

Ainda mais agora que o Facebook está cheio de receitinhas rápidas e criativas. Me esbaldo. Repasso muitas. Rapidez é meu lema. Fujo das receitas demoradas, aquelas em que é preciso deixar a massa descansar, levar ao freezer, furar, colocar uns feijões crus em cima, pré-assar, rechear e levar novamente ao forno. E, sério, nem por isso elas resultam em pratos que ganhariam um Oscar, se comparadas a um filme. Tudo bem, algumas. Talvez.

Mas é impossível fazer todas as bacaninhas que a gente vê na internet ou que as amigas conhecem. Vira algo assim como aquele livro 1001 Livros para Ler antes de Morrer (ok, vou me deitar e começar imediatamente, a sorte é que já li muitos da lista).

Não dá nem para cogitar. E como o tempo é curto sempre, melhor ficar só na vontade e, de quebra, perder alguns quilos. E, como assunto, comida é unanimidade, todo mundo entende pelo menos um pouquinho: Você já fez...? /Uma delícia!/ Experimenta com.../ Uma bomba de calorias, mas.../Cobre com Glaçúcar./ Enquanto estiver quente, enfia uns pedaços de chocolate meio-amargo./Hum.../Nada, pro Mauro, se tiver banana está bom./ Despeja a água fervendo em cima do brócolis e.../ Perai, vocês estão com fome?!

O assunto rende. Numa reunião, quando o assunto morre, é só lançar uma perguntinha envolvendo comida: Quem aqui gosta de...? E já surge um bocado de afirmativas e sugestões: Com.../Sem...?/ Sem./Sem!/Depois.../E depois?/Quente./Gelado./Tudo junto./Mexe bem./ Muito bom./Ah, nunca fiz./Vou experimentar./Bate bastante./Todo mundo adora./Faço sempre./Não fica enjoativo, não.

Ah, já distrai. Dá uma desanuviada. Falar sobre comida é quase tão bom quanto comer. E não engorda. E a troca de informações é uma prova de amizade: ninguém dá receita para inimigos. Para não muito amigos, a gente dá, no máximo, a receita errada. Faltando umas coisinhas, só para eles ficarem com a pulga atrás da orelha: Por que a minha não fica igual? Por quê? Por quê? Por quê? Ah, é só para brincar um pouco, depois você diz: Ah, esqueci! Às vezes a gente esquece mesmo, tanta coisa para pensar, tanto problema... Quem disse que a vida é bolinho, hein?

*Obrigado, em alemão.

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