Virgínia Naves e o filho, Pedro, 9, leem à tarde, na varanda  | Todas as imagens: Edgard Soares

Virgínia Naves e o filho, Pedro, 9, leem à tarde, na varanda  | Todas as imagens: Edgard Soares


O essencial como luxo

Uma joia da arquitetura modernista dos anos 1960, este sobrado no Setor Sul, em Goiânia, abriga uma família que valoriza o convívio, o canto dos pássaros e o sossego


Um pedaço do patrimônio arquitetônico de uma cidade é salvo quando um imóvel que representa uma época cai nas mãos de alguém que valoriza o seu tempo e a sua história. Afinal, sem memória não saberíamos quem somos nem para onde vamos. É o caso desta residência, cujo projeto tem a assinatura de Raul Naves Filó, o talentoso arquiteto e urbanista que, na década de 1960, integrou o importante time de profissionais responsável por materializar o estilo modernista em Goiânia, rompendo o padrão estético dominante da época e produzindo uma arquitetura original e contemporânea. 


O living de 80 metros quadrados está inteiramente conectado com o exterior da casa; destaque para as poltronas Sérgio Rodrigues; sofás Via Condotti; luminária Tolomeo (canto direito), e sobre o aparador, abajur Glo Ball Basic 1 da Flos (à esquerda)

Há sete anos, a arquiteta e empresária Virgínia Maria Naves Caiado estava prestes a iniciar a construção de uma casa num condomínio fechado, quando decidiu rever os planos de viver distante do centro urbano. Após pesquisar inúmeros imóveis, se deparou com a casa onde reside há quatro anos com o marido, o médico Roberto Ramos Caiado, e o filho Pedro, de 9 anos. “Não queria desistir de continuar morando na cidade, de ter tempo para levar meu filho à escola, mas também queria um lugar que fosse sossegado”, conta.


O living com o revestimento original de pedra São Tomé: preciosidade

O sobrado de 540 metros quadrados, com três suítes, piscina e jardim, localizado em uma tranquila viela do Setor Sul, bairro central da cidade, onde o único ruído é produzido pelos passarinhos, encantou a moradora, que acabou convencendo o marido a comprá-la. A reforma consumiu um ano e meio e foi tocada a quatro mãos. Virgínia, que também é dona da Illuminato, loja conceito em iluminação, ponderou a necessidade de ter a opinião de outra profissional intermediando os desejos do casal e para isso contratou a arquiteta Myrian Penna. 


Detalhe do living com parte da coleção de obras de arte 

Com intervenções pontuais, a pérola modernista concebida em 1969, de geometria pura e linhas retas, teve 80% do projeto original preservado pelos novos donos. “As maiores mudanças foram realizadas no piso superior”, explica Virgínia, que prolongou a laje da varanda para ampliar a suíte máster e dar lugar à sacada com vista para o jardim, com entradas para o seu quarto e o do filho. “O térreo era amplo e transparente, ao contrário do nível superior, muito confinado”, explica Myrian, que destaca como ponto positivo no projeto a localização da escada, que dá acesso direto à ala de serviços, sem a necessidade de transitar pela área social.

Poltrona Charles Eames faz companhia às banquetas Sérgio Rodrigues

“Antigamente as casas eram mais visitadas e por isso havia a necessidade de se preservar a privacidade dos moradores”, pontua Myrian. O toque de modernidade à escada foi dado com a substituição do guarda-corpo de alvenaria por blindex, abrindo passagem para a entrada de mais luz. 



Escada que interliga o social à ala íntima ganhou corrimão de blindex, que dá passagem à luz

A configuração da residência expõe o estilo de Filó de trabalhar somente com o essencial. A sala ampla e com grandes aberturas interage com a varanda, a área da piscina, o solarium e o jardim, formado basicamente por palmeiras imperiais e orquídeas engastadas nos troncos. A antiga sauna foi desativada para dar lugar ao escritório. Os caixilhos e as portas de correr foram substituídos e uma falsa parede foi levantada para embuti-las quando abertas.


Na copa, o lustre Light Shade Shade, da Moooi, reflete o ambiente ao seu redor, mesa com base dos anos 50, cadeiras Lúcio, de Sérgio Rodrigues, e carrinho bar Teca, de Jader Almeida; na parede, obras de Siron Franco

Na decoração assinada pela dona da casa, o living foi dividido em dois ambientes, com tapetes demarcando as áreas. Virgínia usou dois sofás idênticos, criando variações com mesas de centro e laterais, poltronas e banquetas. A cartela de cores é neutra para dar suporte a objetos e obras de arte carregadas de cor.


O efeito final é clean, sofisticado, com uma atmosfera de aconchego e descanso. “A parte térrea é toda dedicada ao convívio. Não quis fazer divisão entre sala de jantar e estar, é tudo junto mesmo. Não há um lugar que não usamos”, explica Virgínia. O filho Pedro é o maior beneficiado com o projeto de interior que valoriza o essencial. “Ele costuma apostar corrida com o patinete cruzando toda a extensão da sala e da varanda”, conta rindo.


O solarium de concreto abriga mesa e cadeiras Tamanduá Bandeira

No térreo, tanto na parte interna como na externa, Virgínia manteve o revestimento  do piso original da casa, feito com pedra São Tomé, outro sinal do vanguardismo de Filó. Na reforma, foi necessária somente a troca de algumas unidades da pedra mineira, bastante usada nos dias atuais. 



Para o piso do nível superior, Virgínia optou por um revestimento de réguas de madeira cumaru, trazendo aconchego aos ambientes. A decoração da ala íntima segue o estilo de optar apenas pelo essencial. “É uma casa que ainda está em processo de construção”, afirma Virgínia, que pretende fazer novas intervenções no projeto, especialmente no living. 


Pedro brinca com o patinete na área da piscina



A grande piscina revestida de pastilhas azuis ganhou um novo formato na reforma. As arquitetas eliminaram os recortes originais, deixando-a retangular. Próxima a ela, o paisagismo foi completado por uma fileira de palmeira-ráfia arrematada por um banco de ripas. O solarium de concreto, original do projeto, aguarda o crescimento das mudas de jade laranja. Recentemente, o jardim ganhou mais uma espécie, uma muda de ipê-amarelo, plantada próxima à varanda. “Um amigo nos presenteou. Ele a trouxe e a plantou enquanto estávamos fora”, conta Virgínia. Nada mais apropriado para coroar este precioso projeto de arquitetura.


Virgíniadesfruta da companhia do filho, Pedro, 9, sentados na poltrona Carlos Motta




A vida de Filó
O arquiteto e urbanista Raul Naves Filó nasceu no município goiano de Corumbaíba, a 220 quilômetros de Goiânia. O sobrenome Filó veio originalmente de “Filho” que, por erro do escrivão, ficou registrado como tal. Os pais, Maria e Raul Naves, mineiros e pioneiros em Goiás, se transferiram para Goiânia na década de 1930 e implantaram, no bairro de Campinas, o Palace Hotel, hoje tombado pelo Patrimônio Histórico. 

Os pais enviaram Raul Filó para cursar Arquitetura na Universidade Mackenzie, em São Paulo. Filó foi colega de turma de Paulo Mendes da Rocha e aluno de Carlos Millan, de quem recebeu muita influência. Ao formar-se, em 1960, retornou a Goiânia, onde montou um escritório em sociedade com o colega Ariel Costa Campos. Foi dono da Taba Móveis, que trabalhava com móveis assinados e que, por se tratar de um conceito muito à frente do mercado local, não durou muito tempo.


Escultura do artista Siron Franco repousa no gramado do jardim

Filó foi quem organizou o concurso para a sede social do Jóquei Clube, que inseriu Paulo Mendes da Rocha no cenário da arquitetura local; trabalhou na Universidade Federal de Goiás (UFG) e foi fundador da Escola de Engenharia da UFG e primeiro-secretário de Planejamento do Brasil. Projetou diversas obras em Goiânia, desde edifícios comerciais a residências, com grande repercussão.  

*Reportagem publicada da edição cinco da revista The Book

Seja o primeiro a comentar

* Campos Obrigatórios. **Seu email não será divulgado