O artista Márcio Mendanha de Queiroz, o Kboco, imprime sua marca em Goiânia com o projeto Base Central| Imagem: Edgard Soares

O artista Márcio Mendanha de Queiroz, o Kboco, imprime sua marca em Goiânia com o projeto Base Central| Imagem: Edgard Soares


E o cerrado virou Kboco

Na árida paisagem de Goiânia, a arte de Márcio Mendanha de Queiroz surpreende com suas formas geométricas, linhas arquitetônicas e curvas sinuosas, fazendo fluir um rio de poesia na sua cidade de origem

O cerrado é assim: meio vazio, árido, quente. E cheio de surpresas, de espécies variadas de vegetação, de árvores retorcidas de folhas duras, rascantes ao tato. E de abundantes tons de verde, muitos marrons e sedutores ipês- amarelos, rosas, brancos, roxos... Goiânia é uma capital de história recente, construções mais modernas, construções antigas que ainda não sucumbiram ao mercado imobiliário, muitos, muitos prédios e, por vezes, uma impactante arte urbana.


Kboco, em foto de Edgard Soares para a revista The Book

Você vem andando/dirigindo pelo Centro ou pelo Setor Sul e, de repente, se surpreende com murais de formas geométricas, linhas arquitetônicas, elementos de culturas ancestrais, curvas sinuosas, cores contidas e terrosas quebradas por um ensolarado amarelo, um dramático preto ou um pulsante azul cobalto. Se espanta também com um poético rosa. E com uma sobriedade, um esmero técnico não habitual na arte que se vê no espaço urbano.

Uma das obras do projeto Base Central, na Rua 10, no Centro da capital goiana, realizadas por Kboco e Santhiago Selon. Imagens captadas por Ebert Calaça integraram exposição na Fnac Goiânia 

É o Kboco, que imprime sua marca particularíssima na sua cidade de origem, por meio do projeto Base Central, realizado com o parceiro de longa data, Santhiago Selon. Há um rigor formal ali e, ao mesmo tempo, uma impressão de facilidade, de leveza, de água corrente que desliza mundo afora. Fluidez.


UM DESEJO DE KBOCO? PINTAR MUITO PELO SERTÃO

Márcio Mendanha de Queiroz, o Kboco, não por acaso, utiliza palavras como fluxo vital, processo natural, espontaneidade, equilíbrio, para falar de sua arte e trajetória como artista plástico, profissão escolhida com lucidez e intensidade e que significou também muita batalha, muita experimentação, muita pesquisa.

O fato de Márcio Mendanha de Queiroz se transformar no Kboco, com participação em Bienais, individual na Art Basel, na Suíça, exposições em Nova York, Portugal, Inglaterra, França, México e Espanha, objeto de artigo científico e personagem real do livro Sertão Nômade, da crítica de arte Maria Hirszman (Goiânia: Editora UFG, 2013, 236 p.), no entanto, aconteceu como um processo natural da vida.


Outra obra pintada por Kboco na Rua 10, Centro Imagem: Ebert Calaça

“Tudo foi muito espontâneo e, sem grandes planejamentos, foi fluindo e, quando me dei conta, já era um Kboco”, diz o artista, que há uma década vive em São Paulo. Na capital paulista, onde desembarcou aos 26 anos, integrou o grupo da Choque Cultural até chegar à tradicional Galeria Marília Razuk.

O conhecimento técnico inicial se deu em Goiânia, num curso de desenho que incluía história da arte. O espaço urbano, segundo ele, era vitrine, sala de reunião, lugar onde as coisas efetivamente aconteciam, o que significava também reconhecimento e fonte de renda.

O nomadismo que o levou a Olinda, Porto Alegre, São Paulo e Santiago, no Chile, entre outros lugares do planeta aguçou sua percepção de que, dentro da arte, existem muitas ramificações e que algumas expressões artísticas são vendáveis; outras, não. E que, para fazer da arte também uma fonte de renda, é fundamental um apuro técnico constante, resultante da necessidade de expressar uma sensibilidade estética urgente e incontrolável, com a convicção de que está tudo interligado no universo, ligação essa que se reflete também no fluxo de ideias e no fluxo vital de tudo o que está vivo.


Imagem: Ebert Calaça

 Afinal, quem é Kboco? Um cara que humaniza a geometria e usa um número reduzido de cores aliado a tonalidades impuras? Que usa arabescos, círculos, linhas retas, curvas suaves, engrenagens, num mix cheio de minúcia e argúcia? Que aglutina, com precisão, ancestralidade e modernidade? Que cria um abstracionismo concreto e decifrável? Que percebeu a potência de fazer um trabalho à margem do circuito de arte e de usar todos os suportes e todas as referências de seu(s) universo(s) para chegar a uma linguagem única, em ininterrupta e inevitável mutação? Por que não?

Caboclo esperto, Kboco recusa rótulos, diz que tudo está em constante diálogo e que é possível usar vários suportes para a sua arte, desde muros, pistas de skate, papéis, telas e até uma tenda de umbanda, um espaço tão nobre quanto qualquer outro. O fato de se considerar um ser “livre e solto pelo sertão” pode explicar o caráter múltiplo de sua obra, plena de ícones de culturas diversas. Instalações, paisagismo, fotografia? Tudo é continuação, ligação, expressão e registro. Veredas.

Sabedor de que quebrar padrões nunca é simples em nenhuma atividade humana, mas que é possível fazer arte dentro e fora do circuito, Kboco tem a convicção de que é preciso fazer muito, muito mesmo, além de possuir uma visão um pouco além do alcance, “para poder enxergar melhor mais para frente”.  E de forma contínua, pois, como ele diz, “sertão e mundo estão sempre interligados e se abastecendo”, assim como ele se abastece e reabastece nesses universos. Livremente.


Imagem: Ebert Calaça

E se não é possível etiquetar o mundo, também a arte de Kboco escapa dos estereótipos e se derrama por aí, numa organização transgressora, usando suportes que se complementam e se alternam em constante retroalimentação.

Se inicialmente a rua era o lugar de experimentação sagrada e de relaxamento, atualmente esse lugar é o estúdio, o que não exclui a vontade de concretizar outros projetos ligados ao espaço público, como o Base Central, apoiado pelo Fundo Estadual de Arte e Cultura e patrocinado pela empresa Mills, encerrado com exposição de 18 fotos clicadas por ele, Ebert Calaça e Iago Xavier, na Livraria Fnac, em dezembro passado. Para Kboco, os murais dessa intervenção urbana, cuja essência ele pretende levar para lugares remotos do Brasil e do mundo, foram uma espécie de presente para a cidade e seus habitantes. Um desejo do Kboco?  Pintar muito pelo sertão. O sertão vai virar mar? Ah, periga mesmo é o sertão virar Kboco. | Reportagem publicada na Edição 5 da revista The Book | Todos os direitos reservados |

UM DESEJO DE KBOCO? PINTAR MUITO PELO SERTÃO


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