Marília Fleury

Marília Fleury

Marília Fleury é designer, blogueira e escreve nas horas insones

Casal

Hoje eu fugi para a pizzaria. Além do mais, a pizzaria é tão perto que dá para ir a pé. Não que eu tenha ido a pé, mas com amigas, de carro. As amigas levaram o pai na cadeira de rodas, a moça que trabalha lá e cuida do pai delas foi com o marido. Chovia para chuchu. A água escorria lá fora, fazia enxurrada, suava no dorso dos copos de chope e respingou nossos cabelos quando descemos do carro. Conversamos de coisas em comum, de coisas vizinhas, de vizinhos, na nossa amizade tão vizinha. Assim, na paz. O pai trocava carinho com as filhas.

A moça, que conheço há tanto tempo, com um marido que eu não sabia que ela tinha. Bonita sempre e bem disposta sempre, ela contracenava com o marido bem jovem, seguro, tranquilo, na mesma morenice e na mesma parecença. Afinidades. Faço perguntas clássicas: faz tempo que se conhecem, de onde, de quando? E me interessa fundamente, claro, histórias sempre me interessam, se românticas, então...

Moram juntos agora, em outro bairro. E ela não precisa mais vir de bicicleta, atravessando quase três bairros para chegar até aqui. Ele a traz de moto, zeloso, cavalheiro. Busca também. E, como não existe céu só de sol, houve chuvas e trovoadas. Ele a deixou, ela não pediu que voltasse; ele engoliu o despeito com quatro caixas de cerveja em um dia e uma noite e o vomitou todinho em casa alheia. Desopilou o fígado e trocaram de bem. Voltaram, claro. Como estava evidente pelos sorrisos fartos e soltos, felizes até hoje. Assumiu a maridez com gosto.

Também com gosto repete minhamulherminhamulherminhamulherminhamulher.

Moram num lugar enorme, tipo um galpão, na empresa onde ele trabalha, sem pagar aluguel. Espaço de sobra, as duas mobílias juntas couberam e se perderam na imensidão. Brincam que precisam comprar patins para andar pela casa. E que podem gastar, se falando lá dentro, os mil reais que ele tem de crédito no celular. Um loft?, pergunto. Muito chique, afirmo. E que importância tem se é chique, se vivem bem, se ele entende de assuntos variados e se assume e a assume? Ganha a vida prontamente, com disposição e sem questionamentos inúteis, e isso lhe deu o direito de ganhá-la também. Antes dela, diz que molecou bastante e que quase foi apanhado num golpe de barriga. Como é safo e bem informado, esclareceu que assumiria o filho mediante um exame de DNA, mas que casar, não casava, não. A moça não falou mais em gravidez e tudo deu em água.

Agora sério, casado, corretíssimo, nem repara nas filhas da mulher, também mulheres adultas. Quando ela diz que estão juntos há quatro anos, lembro: Você estava lá em casa. Ela confirma. E eu: Lembro até do dia em que você foi se encontrar com ele. E lembro mesmo, direitinho. Minha memória, que esquece onde estacionou o carro e o dia do mês, é afiadíssima para a felicidade, mesmo a alheia. Ela fez tudo com rapidez, capricho e energia, pilhada, louca para ir para Palmas, onde ele estava trabalhando na época.

Falou para alguém, ao celular: Vou encontrar com o meu amor, estou tão animada. Saiu da minha casa para fazer as unhas, para se arrumar e pegar o ônibus. Ele contou o resto do encontro: que ela descera do ônibus de calça comprida e camisa social, de salto alto e óculos escuros, tipo uma executiva. E ele ainda pasma, na experiência mundana dos seus vinte e dois anos: seria a mesma? Ele se lembra até hoje.

Numa atitude de homem de verdade, não aceitou ser convidado (o pai das amigas pagou nossa despesa) e pagou a parte dele e da mulher.

Da pizzaria, saíram para dormir na casa de outra vizinha, que havia viajado. Na manhã seguinte, cada um vai para o seu trabalho. No fim do dia, se encontram de novo e se relatam os acontecimentos cotidianos.

A vida como ela é. Ich, confesso que não gosto do Nelson Rodrigues (ressalva: algumas frases). A vida como ela devia ser. Nosotros? Continuamos. A chuva também continua. Contínua.

1 comentário

jorge

Nossa vc gravava a comverça marilha kkkkkk
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