Marília Fleury

Marília Fleury

Marília Fleury é designer, blogueira e escreve nas horas insones
Cena do filme Casablanca, de 1942, com Humphrey Bogart e Ingrid Bergman | Imagem: Divulgação

Cena do filme Casablanca, de 1942, com Humphrey Bogart e Ingrid Bergman | Imagem: Divulgação

De novo

Tem gente que diz que repete os mesmos erros. E tem quem critique as repetições alheias (Ih, já vi esse filme antes!). Que nada! Nunca são os mesmos erros. E até mesmo os filmes não são os mesmos quando são vistos várias vezes. Eu que o diga: amo Casablanca e assisto todas as vezes que topo com ele em algum lugar. Ou quando, lembrando, busco novamente por aí, só para matar saudades.

De uns tempos para cá, dei para achar que a expressão do Rick Blaine (ah, Humphrey Bogart!) está mais congestionada, os olhos mais injetados, como se ele estivesse bebendo ainda mais. O que me leva a concluir que o amor por Ilsa Lund continua deixando um rastro de destruição na personalidade corajosa e meio cínica de Rick.

Não, nunca é igual. Os erros não são os mesmos. Eles são, no máximo, parecidos, assim como o bege, que clareou um pouquinho e virou nude. Ou o collant, paixão de juventude, que virou body. Em relação a “erros” que aparentemente se repetem, há que se contar sempre com o fator “quer saber?”, aqueles dias em que, por um motivo ou outro, ocorre um tédio, um déjà vu determinador, e você decide “Quer saber?”. As circunstâncias não são as mesmas, mas a válvula propulsora, ou seja, o famoso e inescapável “quer saber?”, sim.

E há que se considerar que alguns erros são bons de cometer (pelo menos momentaneamente), então, mesmo que possuam variáveis, você coloca tudo no mesmo balaio: é sempre a mesma coisa. Existe uma motivação ali, mesmo que inconsciente, e até mesmo essa noção de erro deveria ser repensada.

Claro, os erros geram consequências ruins (também por isso são chamados de erros), mas, se você pensar bem, vai perceber que houve também uma consequência boa, um aprendizado... no próximo erro, certamente vai existir alguma mudança nas falas ou no cenário, na direção de arte, no roteiro. Não se culpe tanto e coloque foco nas variáveis.

Claro que, se as consequências forem sempre devastadoramente desastrosas e sua consciência pesar mais que um Scania, tente evitar com todas as suas forças (e até com aquelas que você não tem). Mas, se não for possível, prepare já sua listinha de justificativas: 1. Eu não tinha consciência do que estava fazendo. 2. Foi a TPM. 3. Trauma de infância e complexo de rejeição. 4. Sou bipolar. 5. Amarrei um pilequinho (mesmo que você só tenha molhado os lábios num cálice de licor). 6. Tomo remédio controlado e exagerei na dose. 7. Sou filha de santo e baixou uma pomba-gira. 8. Foi uma prova espiritual, uma expiação, coisa de vidas passadas mesmo. 9. O Incrível Hulk sempre foi meu ídolo, fazer o quê? 10. Quer saber?

Considere também que um primeiro passo inevitavelmente leva a um segundo passo. Quando eu, já bem mãe de família, seríssima, encarei um parque de diversões e entrei de gaiata num brinquedo aterrorizante, aquele que parece uma roda-gigante cortada ao meio, e a gente fica de cabeça para baixo, e ele para lá em cima e depois despenca violentamente, e as pessoas gritam alucinadas, quase morri. Fechei os olhos e rezei para aquilo acabar logo, mas sempre tinha um babaquara impiedoso que pedia “mais um”. Tive que continuar ali em cima, errando até o final, até a última respiração fraca e entrecortada. O que eu podia fazer? Tirar a barra de ferro da cintura e me estatelar de cara no chão? Foi um erro, claro, um errão, aliás. É, esse eu não repeti. Repeti outros, parecidos, fazer o quê? Toque outra vez, Sam.

3 comentários

jorge

Legau a istoria

Marcelo Lacerda

Dias atrás cometi um. Me arrependi, não amargamente, pois não chegou a me prejudicar. Mas que me arrependi isso tenho certeza. Bjo.

silvio sous

a única designer que é minha amiga e escreve tão bem quanto fala. (da forma e da fôrma mais humana que já vi). E MUIIIIIIIIIIIIIIITO COERENTE!!
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