Marília Fleury

Marília Fleury

Marília Fleury é designer, blogueira e escreve nas horas insones

Terceira guerra mundial

No meio de uma panelinha de camarão com um vinhozinho chileno fiquei sabendo que pode, sim, explodir a terceira guerra mundial. E, sim, essa informação está na internet, em algum lugar. Obviamente, ela não é muito divulgada. Minha filha sabe, aliás, ela sempre SABE.

Uma terceira guerra, além dos milhares de guerras cotidianas, do tráfico, do crime organizado, da Faixa de Gaza, dos ódios, violências e intolerâncias. E o que nós podemos fazer para impedir que ocorra uma terceira guerra mundial? Nada. Não nós, aqui. Não eu, aqui na minha casa, na minha vidinha simples. Seria alienação não me espantar, não mastigar essa informação, não ficar deprimida e paralisada? Ah, o tempo traz isso de bom!

Aprender a medir, não alucinar, não ficar esmagada pelos acontecimentos, principalmente pelos prováveis que talvez nunca venham a ocorrer. E até mesmo pelos que ocorrem. Que delícia não pensar mais que, se um homem não me telefona, não é porque ele foi usar uma serra elétrica e perdeu a mão, ou bateu com a cabeça e ficou com amnésia, ou é muito tímido, ou estava de porre e não lembrou que prometeu telefonar, ou foi sequestrado por terroristas remanescentes do IRA (é, Traídos pelo Desejo me marcou muito), ou foi acometido por uma demência senil precoce. Não, amiguinhas, se ele não telefonou você pode considerar que, em 99,9% dos casos, foi simplesmente porque ele não quis realmente telefonar. Simples assim.

Então, depois de saber dessa terrível possibilidade de eclosão da terceira guerra mundial, fui dormir e sonhei que matava tantas aulas que, de repente, eu não me lembrava mais se cursava o segundo ou o terceiro ano do colegial. Não consegui relacionar o sonho (ou pesadelo?) com a notícia trágica. Continuei dentro do possível, com a vida correndo e a constatação renovada de que, não obstante, é primavera e o jasmin-manga da calçada está todo florido, pintado com flores que ficam mais escuras a cada ano que passa. E que a hera do vizinho, depois de invadir todo o meu muro, virando então “minha hera”, começa a invadir também o muro da vizinhamiga.

Peguei a tesoura e cortei a parte que passava para o muro dela. Afinal, não se deve obrigar ninguém a ter o muro coberto de hera, quando se quer o muro limpo, pintadinho, livre. Civilidade. É possível e recomendo. O correio veio ontem e a moça pediu que eu assinasse um papel. Confesso que quando me pedem para assinar um papel, meu coração bate fraquinho e eu penso logo na SMT. Que nada! Uma amiga não me mandava do Maranhão um espelho cristalino, mas uma cartinha falando da minha importância na vida dela (veja só!), acompanhada de dois livrinhos de Sutras Sagradas. Amizade rara e possível.

No meio de imbróglios cotidianos, perdi até a chave-reserva do carro (a outra também havia sumido e começo a acreditar na existência de um buraco negro), mas rezei para São Longuinho e achei. Funciona mesmo. Hoje é lua cheia, bem clarinha, mesmo obnubilada por nuvens mais densas. A terceira guerra mundial? Hã? 

4 comentários

Maria Thereza

Ótimo, Marília. Os anos ajudam mesmo. Mas só em algumas coisas, em outras não. Continuo me indignando como me indignava ais 15 anos. Só que agora sei melhor o porquê. E meu palpite: não, não vai haver 3ª guerra mundial, assim como o mundo não acabou em 2000, ou em 12/12/2012 ( é isto mesmo?).

Marilia Fleury

Obrigada, Maria Thereza, eu também não sei se os astronautas treinados pela NASA terão oportunidade de conversar com os alienígenas.

Jane Sarques

Parabéns, prima, suas crônicas vão de muito boas a ótimas. Depois, é só publicar o livro, como faz nosso ´ Érico Veríssimo e outros contistas famosos. Beijos.

Gisele

Marília, fiquei muito feliz e honrada de fazer parte dos seus lindos textos, é uma delícia ler o que você escreve! Beijos
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