Marília Fleury

Marília Fleury

Marília Fleury é designer, blogueira e escreve nas horas insones

Batendo igual

Um amigo vem me visitar às vezes. Ama música clássica e entope o carro com uma pilha de CDs. Nem é preciso que toque a campainha.  Já sei, pela música, que ele chegou. Na esforçada tentativa de enxergar o mundo mais azul, colocou lentes dessa cor nos óculos.

O bronzeado permanente adquirido em sessões diárias de natação e a cor das lentes me fizeram perceber que azul e marrom podem, sim, fazer uma parceria afinada. É bacana, e eu sempre digo que ele pode fazer o que quiser na minha casa. Pode almoçar, jantar, dormir, deitar na rede, tomar banho...

Às vezes, ele aproveita e corta meu cabelo. Me ofende (?!). Diz que estou parecendo a Zabé da Loca (nada, esta esperta e velha Izabel, nordestina famosa, que toca pífano e morava numa caverna, tem uma aparência bem simples, usa um paninho na cabeça, mas é só).

Gente boa e de grande valor, sem dúvida. Tento decorar seu apê, mandar para o espaço aquele visual mafuá de doido, e ele reluta em aceitar sugestões. Mas se você não entende disso, cristão! Rusguinhas à parte, a conversa flui. Até hoje, sem virar programada eclusa, se transformar em represa, precisar de fórceps para as respostas. E, graças a Deus, sem virar minguado riachinho, como acontece às vezes, para minha espantada desilusão.

Outro dia, apareceu novamente. Ficamos por aqui, conversando fiado e sério, sério e fiado, alternadamente. De sério, e bastante plausível, conclui que apenas uma cabeça de gay, no caso a dele, entende com propriedade uma cabeça de homem. O problemático é que, como nem todos os homens são gays, a prática da teoria fica meio restrita. E grande parte das mulheres, claro, fica sempre meio confusa, já que não possui uma cabeça de homem para pensar como tal e entender, comme il faut*, as insondáveis criaturas.

E por que será que existe, quase sempre, da parte das mulheres, aquela tendência à fofurice, a tentar compreender atitudes infames e aceitar vulgaridades inconcebíveis? E do que meu amigo me disse, e acho que serve para tudo, é que as coisas têm que bater igual. Para exemplificar, me conta uma de suas histórias.

Pois não é que ele tinha um namorado que, mesmo sem esse título, era de uma constância natural e antiga, numa combinação perfeita de amizade e fogaréu? E aí que, numa dessas, ajustaram um encontro, um programa, sei lá. Meu amigo ficou esperando e o outro não deu retorno. Esperou mais uns dias, e nada. Como ele nunca havia memorizado o número do celular do namorado, simplesmente apagou o número da agenda. Pronto. Sem telefone, sem endereço, sem notícias. Sumidos um do outro. Ele diz que se o outro algum dia quiser encontrá-lo, ele consegue. O que não é impossível de acontecer, afinal, como diz a Marina Wajnsztejn, o mundo é um ovo de codorna anã.

Essa atitude decidida reforça a ideia saudável de reciprocidade. Se não bate igual, por que insistir? E nós dois, de certa forma, e em outra dimensão, batemos igual. Combinamos, num domingo, de ir a Trindade, com ele dirigindo, claro, já que me perco facilmente daqui para ali. Daqui pra lá, então... Eu o levei ao atelier de um amigo artista plástico e nos perdemos, achamos e pasmamos longo tempo em colagens bacanérrimas, enquanto o sol arquejava lá fora e o calor esmurrava as janelas.  E ele me levou em casa de Joabe, com seus 150 Kens e 50 Barbies, além de trocentos cachorrinhos, enfeites de Natal, míni pôneis, brinquedos, bonecos vagamente obscenos, patos, cachorros e gato verdadeiros.

Joabe descreve o trabalhão que dá manter as coleções, costurar roupas das Barbies, vesti-las e penteá-las. Em dado momento, imaginei que todos aqueles serezinhos inanimados ganhariam vida e nos expulsariam dali: a nós, os intrusos.

Na ida, Tom Waits, rouco, louco e miscelâneo; e, na volta, os vidros fechados, nossas garrafas de água, o ar-condicionado ligado e a Nona Sinfonia de Beethoven em volume altíssimo, quase sem palavras, batendo igual. Beatitude.

*como é preciso

1 comentário

Joabe

Gostei da crônica(?). Parabéns, é realmente, meus serezinhos inanimados se animam com a minha presença, é quase uma 'toy story'.... cada 'customização' é como se eles deixassem o mundo da caixa em que vieram e passan a integrar o mundo da minha pessoalidade. Obarigado pela menção.
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