Marília Fleury

Marília Fleury

Marília Fleury é designer, blogueira e escreve nas horas insones

A teus pés

Tentaram abrir meu porta-malas e tiraram até o miolo da fechadura. Também fizeram um buraco incrivelmente redondo com uma chave de fenda. Resultado: depois de me espantar com o preço da concessionária, consultei um amigo que me indicou um chaveiro esperto. Bingo! Por apenas módicos R$ 70, ele se dispôs a resolver o problema.

Enquanto aguardava, catei com os olhos qualquer coisinha para me distrair, qualquer letrinha para ler. Um jornal no balcão. Li, reli e treli. Na terceira vez dei de olhos com um anúncio, que dizia (ou ameaçava?) trazer o amor, “preso, amarrado, apaixonado, rastejando e humilhado aos seus pés”. A poderosa informava, ainda, que só recebia após o trabalho realizado, feito junto ao cliente.

Impossível não pensar naquela coisa que, dizem, se come fria. Vingança, claro. Por que outra razão alguém ia querer um amor preso, amarrado, humilhado, rastejante? TRAGO O SEU AMOR. O “de volta” estava implícito. Se o amor não tivesse sido perdido, mas estivesse a caminho, novinho em folha, por que mereceria essa pena cruel, de tamanha humilhação?

Não, esse “amor” provavelmente tinha aprontado poucas e boas e dado o fora sem nenhuma elegância. Aliás, dar o fora com alguma elegância é tarefa dificílima, cumprida a contento por um limitado número de gentlemen e ladies do planeta. Daí, a pessoa anteriormente humilhada querer de volta o amor, mas um amor de cobra sem veneno, rastejante, aos pés do dono.

Os termos “preso” e “amarrado” sugerem posse. E uma posse digna de Alcatraz, de fuga quase impossível. Ah, a vingança! Sempre de braços (e pernas) dados com o amor, consumindo dias, horas e minutos em planos, frases demolidoras e discursos avassaladores. E dá-lhe muita energia, combustível emocional, retroalimentação.

Não pude deixar de me lembrar do Fabrício Carpinejar, aquele superpoeta que diz que o silêncio talvez seja a melhor vingança. Deixar a pessoa esperando por uma resposta que não vai chegar nunca. Tem lógica, não? O que foi embora se questiona intimamente: E agora? Ele (a) não vai me espinafrar? Tentar voltar a todo custo? Lançar mão de manhas e artimanhas? Silêncio absoluto. O outro começa a ficar um pouco sem graça, inquieto, meio chateadinho mesmo. O brilho da nova conquista (claro, se o amor foi embora é porque já tinha outro alguém em mira) fica meio embaçado, pedindo detergente e Bombril. O tempo passa. Silêncio. Num possível encontro na rua: pescoço esticado ao máximo (inspire-se no Terraço Itália), baixar de olhos ostensivo e cantos da boca levemente apontados para baixo (já nos vimos em algum lugar?).

A vingança é mesmo um prato que se come frio? Que nada! Come-se ainda quente, em silêncio, em paz, com toda classe e elegância, digerida com tempo e vagar (e um bom vinho português, de preferência). E, como o tempo, além de um divisor de águas, é, digamos, um aplainador de emoções, quando você vê, já foi: Cadê o toicinho que estava aqui?/ O gato comeu. /Cadê o gato?/ Foi para o mato. /Cadê o mato? /O fogo queimou./ Cadê o fogo? / A água apagou... E por aí vai.

3 comentários

Rafaela

Muito bom Marília, adoreiiii. Bjs!

Nadia Nara Salla

Ei Marília, como sempre nos apresenta textos excelentes... Realmente a melhor vingança é o silencio. bijos.

Karine

Amei!!!
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