Marília Fleury

Marília Fleury

Marília Fleury é designer, blogueira e escreve nas horas insones
Ilustração: Pratinhos Voadores|Adevania Silveira

Ilustração: Pratinhos Voadores|Adevania Silveira

Depressão

Não quis entrar. Senta aqui. Nada. Não quis se escarrapachar na rede (isso fiz eu), que é tão mais confortável, e se encarapitou no banquinho, fitando tristemente os mocassins, o pescoço pendurado, farol verde-acinzentado baixinho. As covinhas de quando ria tinham feito as malas e partido não sei pra onde. Parecia mesmo triste, apassarinhada na gaiola. Tampouco quis deixar que o cachorro, que era pequeno e de boa paz, escapulisse pela grama molhada e cumprimentasse caninamente a coelha ou as gatas. Depressão. Pela manhã, havíamos nos encontrado no veterinário e a expressão era a mesma. Pergunta:

– Existe depressão política?

– Se você ainda estivesse na aviação, talvez pudesse até pedir uma licença. Já ouvi falar até em neurose ambiental, sabe aquela coisa? Você entra num ambiente e já dá aquele piriri, aquele enjoo...

– Penso em tanta gente com problemas sérios, doenças, e eu assim, triste com a situação do Brasil...

Para piorar, havia viajado recentemente e visto, de novo, o mundo lá fora, a seriedade, a limpeza, a organização, supermercados orgânicos com produtos baratos, jardins bem cuidados. Jardins? O parque aqui perto foi tomado por um capim bem alto, e o substantivo pode ser trocado por matagal, sem direito a Chapeuzinhos Vermelhos (têm a sua graça, quem nunca cobiçou aquela capinha linda?) e a Lobos Maus (que, muitas vezes, nem fazem jus ao adjetivo, ainda bem). Os filhos vieram de férias e ela conta que os levou para um passeio no pantanal (basta atravessar a rua). Lamentou apenas não poder trazer a cobra de oito metros da nora, bonita e mansinha, para curtir aquele verde fartíssimo.

Do sul, viajada às pampas, cosmopolita, inteligente e poliglota, me socorre em quase todas as coisas que não sei, em todas as coisas práticas em que ninguém mais pensa. Me acode também com o cabelo, a maquiagem e até com o esmalte, mesmo com a comida no fogo ou depois de varrer onde o padre passa. Não quer que eu faça feio e espeta em mim olhos de lince. Muitas vezes, durante uma conversa, seu olho despenca na minha unha e ela cata prontamente a lixa.

Combativa, se arrancou daqui para ir ao Congresso assistir a votação da PLN 36. Foi de ônibus, e olhe que é preciso paciência para ir a Brasília de ônibus (nunca vi um tão pertinho que demora tanto!). Voltou ainda mais abalada, chateada à beça. Continuou acompanhando atentamente os noticiários, lendo os jornais. Fechou a cara, com razão.

Vocifera contra algumas tias feias que gostam de fazer maldades. E  contra a fortaleza inabalável de determinados partidos. Algumas coisas ninguém consegue destruir, conclui. Elas acabam por si sós assim como muitos amores. Teoriza, analogicamente (?): se está mais do que claro que certos casais não vão dar certo mesmo, considerando semelhanças inconciliáveis e totalmente improdutivas, mais eficaz seria incentivar. Por que não questionar “por que vocês não se casam?”. A dupla se espantará, naturalmente, consciente da falta de recursos materiais e emocionais para bancar a situação. Aí é preciso reforçar: “Ah, mas o mais importante vocês têm, que é o amor.”

Em questões políticas, no entanto, fica impossível lançar mão de alguns blefes. Vai que dá certo? E alguns casais (ops, ligações) são perigosíssimos (ah, Chordelos de Laclos!). No Facebook, ela pede companhia para pular o ano de 2015 e já ir direto para 2016. Será que dona Divina, astrôloga (é, assim mesmo) e vidente, poderia nos dizer o que o futuro nos reserva?

3 comentários

Salvio Juliano

É sempre tocante ver gente que se importa com as coisas que têm relevância de verdade. Linda personagem, Marília Fleury.

Ingrid Beatriz

Encantadoras as tuas palavras, refletem muito bem o espirito da nossa amiga....

Sílvia de Souza

Bonita, meiga, classuda, ela é a lucidez em pessoa. Por isso, a depressão política, que o momento em nosso país leva a isso mesmo.
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