Marília Fleury

Marília Fleury

Marília Fleury é designer, blogueira e escreve nas horas insones

Mofas com a pomba na balaia

Alguns poucos (ah, tão pouquinhos!) dias na praia e já deu para voltar com a alma lavada. Um pouco salgada também, aquecida, temperada e refinada pelo sol, pelo mar e pela areia. E a casa da amiga ficava a uns dois minutos da praia, olha que incrível! Bastava dobrar uma esquina, entrar num caminho de areia cercado de mato, descer uma duna. Dizem que no fim do arco-íris tem um pote de ouro.

No fim daquele caminhozinho tem o mar. Vale mais. E por que mesmo é que você só queria ir para a Califórnia, que é tão longe, Ricardo Graça Mello? Só andar nessa praia já é uma delícia, bem na beirinha do mar, para sentir que a areia fica fininha logo depois que vem a onda, e mais grossa, um pouco depois, quando a onda já vai longe.

Texturas.

O resto é simples, num dia você pega tudo, fácin, fácin. Não é preciso levar toalha, basta uma canga, que você usa no corpo e depois estica na areia. Para o vento não levar, prenda a parte de cima com um pé da chinela e a de baixo com o outro. E muito protetor solar, não se esquecendo dos pés, para não ficar com botinhas vermelhas. Tá certo que o Natal está próximo, mas.

Como o vento sopra forte, quando você voltar da caminhada quilométrica, sua canga vai estar pura areia. Esfregue a areia pelo corpo e ganhe uma esfoliação. Entre no mar, lave a areia e se seque ao sol. Pronto.

Um biquíni com as laterais mais largas é perfeito para enfiar o trocadinho de comprar a cerveja, que fica a uma boa distância de onde você se situou. Aqueles de lacinhos na lateral não se prestam a essa função. E, se você quer furar ondas, o tomara-que-caia é totalmente impróprio, pois ele cumpre o que não promete explicitamente: ele cai mesmo.

Completando o painel paradisíaco: cachorros, que dão graça a qualquer lugar e são figuraças na praia. O melhor de todos: Marley, um golden retriever dourado. É, de uns tempos para cá, muita gente tem marleys. Mas esse era um Marley especialíssimo.

Parei de caminhar e fiquei só olhando. Marley, acompanhado do dono, um garotinho e uma cachorrinha pequena (seria uma basset?), entrava no mar de peito, olhos e patas abertos, furava ondas, corria para a areia, pulava nos outros cachorros, latia, voltava para o mar: curtia, fruía. Encarava todas e voltava encharcado, pingando.  E olhe que Marley tinha vindo de Curitiba, não sendo, portanto, nenhum garoto de praia.

A cachorrinha, talvez possuindo humilde consciência da sua pequenez, não entrava no mar pra valer: chegava pertinho, soltava uns gritinhos esganiçados e dava uns passinhos para trás. E, de novo, para frente. E para trás, naquela atitude supliciante de “quero, mas não posso”, “quero, mas tenho medo”. E quem já experimentou essa sensação sabe muito bem do que eu estou falando: de uma agonia impotente e espicaçante. Mas, voltando ao Marley, ele estava, sem dúvida, no seu habitat: integrado, plugado, irmanado, pura energia e instinto.

E, embora eu não acredite, como dizia o Humphrey Bogart, que a humanidade está sempre três uísques atrasada, uns bons vinte minutos (meia hora, vá lá) diários de uma irracionalidade pura, pacífica e canina, garantiria uma sanidade mental natural e duradoura. E uma civilidade inabalável, of course. Nada muito radical, apenas uma animalização temporária, uma ausência de pensamento lógico, um “quer saber?” avassalador.

Certamente não está na Declaração dos Direitos Universais do Homem, mas todos deveriam ter direito à água (do mar, claro), ao sol e a um Marley interior. Mofas com a pomba na balaia? É uma expressão utilizada em Florianópolis, surgida no meio de uma discussão entre uma possível compradora e um mercador de pombas. O preço era alto, e a mulher, indignada, proferiu a frase em questão. Complementando: não vais conseguir teus objetivos. Ah, Marley, certamente não mofarás com a pomba na balaia. Nem eu. Amém.

4 comentários

Erika

Sou fã da Marília Fleury! Inteligência e discontracão, além de imprimir toda leveza da sua alma!

Jacqueline

Amei a descontração de suas palavras que dançam soltas e completas pelo "papel" virtual de nossos novos tempos!!!

Marlise Zenzen

Mesmo aqui sentada e lendo viajei com você!

Sara Moreira

Nossa!!! Me senti como se estivesse realmente na praia...
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