Marília Fleury

Marília Fleury

Marília Fleury é designer, blogueira e escreve nas horas insones

Na alegria

No outro (quase) extremo da cidade: um encontro numa academia de ginástica, o trânsito, o choque-choque de ferros batendo, crianças à mancheia (e deixa que pensem, que brinquem, que falem!), gritinhos e música, conversas e adultos, muitos. Malhando. Urbanidades. Tempo fresquinho. No comecinho da noite, um conselho de clientes de um supermercado. Cheguei antes. Enquanto esperava, comprei produtos em oferta, xeretei um pouco e fui para o caixa. Os caixas estavam meio vazios naquele horário. A mulher do caixa era simpática, sorridente:

Pode vir aqui, estamos doidos para trabalhar um pouco.

Posso passar agora, voltar e ficar com a sacola?

– Coloca a sacola dentro do carrinho.

É que vim para o conselho de clientes...

Que chique!

Naaada! Compro pouquinho, uma sacola pela metade, olha só: as laranjas, o vinho, as uvas, as ameixas, as tâmaras, o Toddy, só compro o que está em oferta. Só o leite que não, também não vai ser essa garrafinha de leite que vai me quebrar... Acredita que compro tão pouquinho há anos, que ainda não consegui ganhar R$100 de bônus?

Você é engraçada.

Imagina! Ainda vão servir a ceia. Onde eu deixo o carrinho?

Deixa perto de você, para não perder.

Superideia. Obrigada!

Você é muito simpática.

Imagina!

A mulher era alegre e riu mais. Eu também. Desabamos em risinhos e sacudimos as cabeças. Estava de salto, fui andando e gingando um pouco. Involuntário. Contenteza, só.  Ergo a mão direita aberta e dedilho um piano no ar: tchau. Tchau.

Aí, fiquei esperando. Aceita água? Aceito. Aceita suco? Aceito. Aceita vinho? Sim, por favor. Os pratos da ceia, criados para este ano, ainda demoraram um pouquinho para serem servidos. Eu, sozinha. Sorte é que um rapaz e uma moça bem jovens se sentaram na minha frente. Bonitinhos que só. E irmãozinhos, os dois. A moça, com uma barriguinha de muitos meses, cabelo bem comprido. E aí, no que vocês trabalham?/ Eu trabalho aqui, sou nutricionista./ Eu faço faculdade de engenharia.

O rapaz parecia bem garoto, mas disse que tinha quase 30. Juuura? Eu daria uns 23, 24... Mostro a foto do meu filho no celular: Vê? Meu filho tem 20 e parece mais velho que você. Diz que demorou a entrar na faculdade porque estava viajando... Itália, Inglaterra, trabalhou como garçom em um cruzeiro e conheceu um monte de países. Aprovo totalmente.

A moça, delicadinha, descreve os pratos e conta que espera uma menininha. Falo, ainda, nos meus filhos (vício de mãe, nenhuma clínica de recuperação dá conta). Servem a ceia. Delícia. Um espumante. Já deu uma paz. Espumante dá uma paz, espuma na banheira dá uma paz, espuma no mar, idem. Aquele doce antigo, Espuma do mar, também. O som dessas palavras, espuma e mar, também.

Presentinho? Um panetone glaçado, com cerejas, castanhas, damascos... Voltei para casa, e tudo bem. Tudo certo, nenhum monstro, nenhum ladrão à espreita, nenhuma surpresa, nenhum escorregão no tapete, a chave não encrencou na porta, nenhum morcego batmaneando pelos cômodos nem uma (pavor dos pavores!) barata na cozinha. Duas gatas (uma feia e uma bonita) e uma coelha (divina, sexy, interessante!). Confere. Enquanto lia, antes de dormir, metade das tâmaras. Engorda nada, que a embalagem é pequena.

No outro dia, precisei ir a Anápolis pela manhã. Ainda estava cedo e, graças a Deus, eu estava de carona. De novo o tempo fresquinho, sem sol; mesmo assim, o verde me impactou (Mimpactou?! Ih, essa construção ficou esquisita!).

Morros bem verdes e árvores por todos os lados. Antes da chuva. Não era o céu incrivelmente estrelado da Macedônia, no filme homônimo de Milcho Manchevski, mas um céu tranquilo, de um azul-hortênsia meio fechado, e aquele verde que te quero cada vez mais verde explodindo.

Na volta, a chuva choveu tudo o que ela tinha para chover e se retirou silenciosamente. Na casa da mãe, comi pães de queijo saídos do forno com um café quentíssimo. Logo anoiteceu e vim dormir. Pá: apaguei.

Lá pelas tantas, comecei a sentir frio e acordei. Ou acordei e percebi que estava com frio. A colcha de matelassê havia caído. No chão, encostadinho no armário, um vagalume piscava. A luzinha já estava fraquinha, como se a Rayovac interna dele estivesse quase pifando. Há muitos anos eu não via um insetinho desses. Achei um bom sinal.

Alegria: um pote cheinho de vagalumes.

12 comentários

rosy

Vivaaaaaahhhhhhhh uauuuuu adoro ler Marilia Fleury, me encanto com sua versatilidade e seu humor. Parabéns!! Fecharemos o ano com mil luzes de alegria.

Laura Faria

Divertido, leve... Adorei Marilia,Parabéns!!!!

Marlise

Muito bom, com vinho, melhor ainda! Marlise

Jane Sarques

As crônicas de Marília Fleury são imperdíveis. Ela escreve sobre fatos e pessoas do cotidiano, em português correto e leve, sempre humor entre-linhas e com este sorriso maroto de quem vai nos surpreender. Jane

Adriana Alves

Parabéns Marília e Adevânia, belo texto! FC maravilhoso de uma publicação esplendorosa - THE BOOK. Vida longa! Abraços e feliz natal!!

Erika

Muito boa sua crônica Marília! Abraços, beijo e feliz natal!!

Pedro Zuppa

Nossa, não sabia que escrevia e nem que é tão boa. Adorei! Sdds!

Telma F.N. Durães

Que bacana! Adorei o texto! A forma como transforma em palavras histórias reais é magnífica!

DIOMAR LUSTOSA

e por falar nos luciérnagas por onde andam????

alberto tolentino

cerejas ao ponto,céu de vanilla, ou chá de anis, assim me parece as palavras de Marília Fleury.

Cristina Silva Moraes

Dias bem vividos em forma e palavras...

Cleo Burjack

Sou fã.admiro, curto...
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