Marcelo Solá, em foto produzida para a matéria de capa da edição número 1 da The Book | Imagens: Edgard Soares

Marcelo Solá, em foto produzida para a matéria de capa da edição número 1 da The Book | Imagens: Edgard Soares

Muito prazer, Chanterclayson

Nome de destaque na arte contemporânea brasileira, Marcelo Solá colhe os frutos da mudança de vida que começou há cinco anos. Abandonou as baladas, mudou-se para um condomínio fora de Goiânia, retomou as cores e abriu 2013 com uma mostra nos Estados Unidos. Em seu Hidrolands Grafisch Atelier, acorda bem cedo para criar o universo paralelo de seu heterônimo



Uma dúzia de emails e ligações telefônicas, quatro encontros desmarcados e as dores de cabeça por conta de uma big infiltração que inundou o recém-construído ateliê separam Marcelo Solá da entrevista para a capa de lançamento da The Book. Apesar da demora, tivemos sorte. Era véspera do Natal, Marcelo estava às voltas com os preparativos para a próxima exposição e só viajaria novamente no feriado de Carnaval.

É cada vez mais raro o artista permanecer por longas temporadas em Goiânia e, em 2012, não foi diferente. A movimentada agenda de exposições o levou a Brasília, ao Rio Janeiro, a São Paulo e Florianópolis. No total foram dez viagens. Era final de novembro quando finalmente conseguimos nos reunir em seu apartamento do Edifício Bemosa, no centro da cidade. Solá acabara de chegar do Recife, onde havia inaugurado Pharmacia Deluxe, ao lado do mineiro Célio Braga, a última exibição do ano.

Solá expõe com regularidade no Brasil e no exterior e já fez mostras em Buenos Aires, Nova York, na Bélgica e em Madri. Em 2002, participou da Bienal Internacional de São Paulo e faz mostras individuais nas principais capitais do País: São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte. No entanto, no dia da entrevista, não conseguia esconder o entusiasmo pela mostra que estava por vir, a segunda em solo americano. Desde 23 de janeiro, o Krannert Art Museum, em Champaign, Estados Unidos, apresenta seis trabalhos do artista na coletiva Blind Field (Campo Cego), sob curadoria de Tumelo Mosaka e Irene Small.


Centrada na nova geração de artistas brasileiros, a mostra irá percorrer outros dois museus no País. “Passaram um ano pesquisando os artistas. É o que há de mais fresco na arte contemporânea brasileira”, pontuou Solá sobre a exposição que exibe obras de Cao Guimarães, assim como trabalhos de Jonathas de Andrade, Tatiana Blass, Marcelo Cidade, Carolina Cordeiro, Marilá Dardot, Marcius Galan, André Komatsu, Graziela Kunsch, Cinthia Marcelle, Lais Myrrha, Nicolás Robbio, Daniel Steegman Mangrané, Rodrigo Matheus, Carlos Mélo, Matheus Rocha Pitta, Thiago Rocha Pitta e Héctor Zamora (quatro deles não são brasileiros, mas vivem e trabalham no País).

A mostra permanece em Illinois até 31 de março, depois segue para Eli Michigan State University e Museu de Arte Edythe Broad. A primeira vez de Solá esteve nos Estados Unidos foi em 2001, onde mostrou uma série de desenhos pretos, feita com tinta a óleo sobre papel e com frases em inglês, no Drawing Center de Nova York. A exposição foi considerada o divisor de águas na sua carreira, projetando-o no cenário artístico contemporâneo brasileiro.


Abrir o ano com a exposição nos Estados Unidos é só um prenúncio do que o goianiense de 41 anos deve aprontar em 2013. Duas mostras individuais, uma em São Paulo e outra em Belo Horizonte, já estão acertadas. “Marcelo está sempre nos surpreendendo pelo lado bom. Quem acompanha o seu trabalho consegue detectar a sua inquietude. É um artista que sabe superar a si mesmo com propriedade e talento”, afirma o marchand Marcos Caiado sobre o artista que estreou no circuito de exposições há menos de uma década e meia.

O bom momento do artista não se deve apenas ao reconhecimento e ao amadurecimento de uma produção que transita na área limítrofe do desenho, do desenho-pintura e do desenho-instalação. É preciso dar crédito à nova disciplina de vida que o artista se impôs há cerca de 5 anos. Uma delas − a que provocou as mudanças mais profundas − foi a decisão de abandonar as costumeiras baladas regadas a muita bebida e otras cositas más para se converter em um pacato cidadão que gosta de acordar bem cedo para se dedicar de corpo e alma ao desenho.

A casa-ateliê de 400 metros quadrados que construiu em um condomínio na cidade vizinha de Hidrolândia, a 30 quilômetros de Goiânia, ajudou-o a conquistar a tranquilidade e o equilíbrio que tanto ansiava. “Agora só falta praticar exercícios físicos”, brinca o artista sobre a nova fase.

Parece contraditório que um artista, cujo trabalho dialoga diretamente com a arquitetura em decomposição das cidades, os muros grafitados e as camadas de pôsteres pregados com goma, tenha escolhido o reservado convívio com o campo ao invés de sons de buzina e a cinza fumaça da poluição. Para Solá, não há nenhum mistério nisso pelo fato de passar metade do seu tempo transitando entre os grandes centros, onde se reabastece de matéria-prima para o trabalho. Os amigos também não permitem longos períodos de isolamento. É comum, nos finais de semana em que está em Goiânia, receber hóspedes no ateliê. É nesses momentos que Solá aproveita para cultivar hábitos como tomar vinho, ouvir música e bater papo.


O novo estilo de vida refletiu grandemente no trabalho do artista, que resgatou o colorido da fase inicial depois de um largo ciclo monocromático. Um exemplo clássico dessa época foi a sua participação na XXV Bienal de São Paulo, em 2002, quando apresentou uma instalação composta por escultura, desenhos e um desenho-pintura mural. Um ambiente pesadamente sombrio, integralmente realizado em preto e branco, no qual, ao lado de um mural composto por um enorme plano preto recortado por camadas de túneis e palavras enterradas, havia uma espécie de avião formado por carrinhos funerários.

A individual de Marcelo Solá, realizada pela Galeria Luciana Caravello, no Rio de Janeiro, ano passado, talvez seja uma das mais representativas desse novo estágio de expressão do artista. “asa das Primas + Hidrolands Grafisch Atelier Chanterclayson/Dusted Souls, que apresentou desenhos em técnica mista − esmalte sintético, bastão de giz, pastel seco, aquarela, lápis, spray e tinta a óleo sobre papel fabriano de algodão, fabricado na Itália, e canson, de origem francesa – explora um mundo imaginário, habitado pelo motoboy Chanterclayson.

O negro recorrente é agora transfigurado por uma explosão de cores, e os traços ganham a liberdade de uma criança, da mesma que um dia teve o incentivo dos pais a pintar as paredes da casa onde moravam. “Bem no começo na minha carreira tinha a questão, e ainda tem isso, de desenhar por um prazer intenso, de construir uma carreira através do desenho, de construir uma vida a partir do desenho, de falar da história do desenho. Isso ainda está muito presente no meu trabalho”, afirma Solá, ao avaliar que o conjunto de sua obra não estaciona em um determinado momento, nem se modifica, mas se transforma lentamente, ora subtraindo, ora acrescentando elementos.

Da fase inicial do artista, que começou ainda muito jovem, aos 18 anos, a empresária Vânia Abrão pode falar com propriedade. A primeira vez que se deparou com os desenhos de Solá, na extinta Galeria Multiarte, do marchand PX Silveira, Vânia se impressionou com o grau de sofisticação dos desenhos sobre papel comum. A partir daí, de admiradora passou a incentivadora e colecionadora.

“É provável que Vânia tenha sido a primeira a comprar um trabalho meu”, atesta Solá, que lembra ter recebido regularmente a empresária em seu primeiro ateliê no Setor Bueno. “Ela acreditava no meu trabalho, dizia para eu continuar e isso me fazia ter vontade de fazer as coisas acontecerem”, conta.


Outras duas figuras fundamentais no início da carreira do artista, segundo o próprio Solá, foram o empresário e colecionador Sebastião Aires, e o jornalista Sebastião Vilela, que produziu e bancou vários dos seus portfólios. “Solá é um artista consistente. Tem uma forte noção de equilíbrio e sabe muito bem integrar o desenho, a cor e os espaços vazios. Sua obra é bem elaborada, aguça as possibilidades do olhar e nos convida a leituras tridimensionais, a inusitadas reorganizações espaciais. Da sua geração, aqui no Centro-Oeste do Brasil, talvez, o de maior destaque junto à critica especializada”, afirma Marcos Caiado.

Riscos, palavras, frases inarticuladas, tenso, obsessivo, desconexo, dramático e coisas que flutuam são expressões que a crítica utiliza reiteradamente para apresentar o trabalho de Solá. Mas, ao que parece, o artista não se detém a estas análises e prefere seguir produzindo à exaustão. “O mercado quer saber de material. E eu produzo muito, então não me preocupo. Para mim ainda é diversão. Quando não estou desenhando estou amadurecendo a ideia, viajando, pensando no que vou fazer amanhã. Estou aqui com você, mas continuo pensando no vermelho ou como seria uma sobreposição”, revela. A pergunta que encerrou a entrevista foi se sonha em ocupar um lugar mais alto no pódio das artes plásticas. Solá escorrega pela tangente e diz que nem ao menos se considera profissional. “Até hoje acho que sou amador”. Quanta modéstia, Chanterclayson.


Mostras individuais

2012
Casa das Primas + Hidrolands Grafisch Atelier Chanterclayson/Dusted Souls, Luciana Caravello Arte Contemporânea, Rio de Janeiro (RJ);
- Mostra Contemporânea Brasileira, Referência Galeria de Arte, Casa Park, Brasília (DF).

2010
- Desenhos, Galeria Laura Alvim, Rio de Janeiro (RJ).

2009
- Desenhos, Galeria Virgílio, São Paulo, SP.
- Desenhos, pinturas e monotipias, Espaço Cultural Contemporâneo – ECCO, Brasília (DF).

2008
- Obras Recentes, Galeria Oeste, São Paulo (SP).
- Exposição Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães, Pátio de São Pedro, Recife (PE).

2006
- Galeria Arte em Dobro, Rio de Janeiro (RJ).

2005
- Desenhos Inéditos - FUNARTE, Brasília, DF.

2004
- Desenhos, Selma Albuquerque Galeria de Arte Belo Horizonte (MG).

2000
- Desenhos, Selma Albuquerque Galeria de Arte Belo Horizonte (MG);
- Desenhos, Referência Galeria de Arte Brasília (DF);
- Desenhos recentes, Galeria Casa Triângulo São Paulo (SP).

1999
- Desenhos e Pinturas Inéditos, MAC Museu de Arte Contemporânea de Goiás Goiânia (GO).

1998
- Desenhos Inéditos, Galeria ACBEU Salvador (BA).

1997
- Projeto Macunaíma, apoiado pela FUNARTE, Fundação Nacional de Artes, Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro (RJ);
- Desenhos, Centro Cultural São Paulo (SP);
- Desenhos, Casa Cambuquira, Belo Horizonte (MG);
- Desenhos, Itaugaleria Brasília (DF).

1996
- Projeto Galeria de Ocupação (mostra de desenhos) FUNARTE, Fundação Nacional de Arte São Paulo (SP).

1995
- Desenhos, Instituto Cultural Itaú, São Paulo (SP);
- Desenhos, Núcleo Cultural e Informática Itaugaleria, Belo Horizonte (MG).

1994
- Desenhos MAC Museu de Arte Contemporânea de Goiás, Goiânia (GO).

1992
- Desenhos, Universidade Federal de Goiás, Biblioteca Central Goiânia (GO).


Mostras coletivas

2012
- Pharmacia Deluxe Galeria Amparo 60, Recife (PE);
- 7 x Cidade, Caixa Cultural São Paulo, Conjunto Nacional, São Paulo;
- Coletiva 10 Anos, Galeria Virgílio, São Paulo (SP);
- Não é banal: sobre o desenho e a vida que se tem, que se leva, que se vive, Divisão de Artes Plásticas da Casa de Cultura da  Universidade Estadual de Londrina (PR).

2011
- ArtRio Feira Internacional de Arte Contemporânea do Rio de Janeiro, Pier Mauá, Rio de Janeiro;
- Proposição, Galeria Luciana Caravello Arte Contemporânea, Rio de Janeiro;
- SP-Arte 2011, Pavilhão da Bienal São Paulo;
- Europalia Feira Internacional de Artes (Festival de Cultura da Bélgica) Art In Brasil (1950-2011) Palais de Beaux Arts, Bélgica;
- 5º edição da Mostra Coletiva Pequenos Formatos, Atelier Subterrânea, Porto Alegre (RS).

2009
- Múltiplos e Pequenos Formatos, Galeria Virgílio, São Paulo (SP);
- Nova Arte Nova, Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro (RJ).

2008
- Heteronínia Brasil, Museu Casa de America Madrid, Espanha.

2006
- 10+1: Os Anos Recentes da Arte Brasileira, Instituto Tomie Ohtake, Säo Paulo (SP);
- Coletiva de inauguração da Galeria Oeste, São Paulo (SP).

2005
- Desenhista na Gentil Carioca, Rio de Janeiro (RJ);
- NANO, Galeria Arte em Dobro, Rio de Janeiro (RJ).

2004
- Novas Aquisições Coleção Gilberto Chateaubriand. Museu de Arte Moderna, Rio de Janeiro (RJ);
- Heterodoxia, Edição Recife. Fundação Joaquim Nabuco, Recife (PE);
- Heterodoxia, Edição Vitória. Casa do Porto, Vitória (ES);
- Heterodoxia, Edição Fortaleza. Museu de Arte Contemporânea, CC. Dragão do Mar, Fortaleza (CE);
- Heterodoxia, Edição Lima. Galeria Contemporânea, Lima, Peru.
- Desenhos, Selma Albuquerque Galeria de Arte Belo Horizonte (MG);
- Desenhos Inéditos, Fundacion Centro de Estudos Brasileiros, Buenos Aires, Argentina.

2003
- Heterodoxia, Edição São Paulo. Galeria Marta Traba, Memorial da América Latina, São Paulo (SP);
- Heterodoxia, Edição João Pessoa. Galeria Archidy Picado, João Pessoa (PB);
- Heterodoxia, Edição Curitiba. Museu Metropolitano de Arte, Curitiba (PR);
- Heterodoxia, Edição Goiânia. Galeria da FAV, Goiânia (GO).

2002

- Projeto “Mano Rey” Salão do Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador (BA);
- XXV Bienal Internacional de São Paulo São Paulo (SP);
- Mostra paralela à XXV Bienal Internacional de Artes Plásticas de São Paulo São Paulo (SP);
- I Bienal de desenho da Paraíba Prêmio: Aquisição.

2001
- Desenhos Drawing Center Nova Iorque, USA.

1999/2000
- Panorama de Arte Brasileira, Exposição Itinerante, Museu de Arte Moderna de São Paulo, São Paulo (SP).

1999
Panorama da Arte Brasileira Contemporânea sobre Papel, Museu de Arte Moderna de São Paulo, São Paulo (SP).

1998
- XVI Salão Nacional de Artes Plásticas, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro (RJ);
- Mostra A Linha Casa do Triângulo, São Paulo (SP);
- Salão Victor Meirelles, Edição 98 Florianópolis (SC);
- Prêmio Brasília de Artes Visuais, Museu de Arte de Brasília, Brasília (DF).

1997
- Projeto “Macunaíma” FUNARTE, Fundação Nacional de Artes, Museu Nacional de Belas Artes Rio de Janeiro (RJ);
- III Salão do Museu de Arte Moderna da Bahia Salvador (BA);
- Panorama de Arte Contemporânea do Centro Oeste, Galeria Athos Bulcão Brasília (BA).

1996
- Projeto “Antártica Artes com a Folha” Mostra paralela à XXIII Bienal de Artes de São Paulo, São Paulo (SP).

1995
- XV Salão de Artes Plásticas Prêmio “Aquisição”, Museu Nacional de Belas Artes Rio de Janeiro (RJ).

1990
- II Bienal de Artes de Goiás, Prêmio: Viagem a Paris (França) Goiânia (GO).

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