“Entre aspas”: cada ponto no seu ponto

Jornalista escreve em resposta à crônica de Maria Thereza Alencastro Veiga sobre a dificuldade para aceitar as convenções da pontuação na ortografia

Fui surpreendido por uma ligação telefônica de Maria Thereza Alencastro Veiga, no sábado à noite. Antes de me enviar o artigo Apocalipse Now para publicação no portal The Book, disse que queria me contratar como professor de português. Na verdade, ela queria um professor de pontuação, já que briga, inevitavelmente consigo própria, para pontuar textos. E me lembrou do quanto é saudosista quando o assunto é pontuar os títulos dos textos que escreve. Disse a ela, no primeiro artigo, que em títulos não se usa ponto final. Contrariada, ela sempre ficava reticente em retirar o tal ponto final dos títulos. Com o tempo, venci! Ela não usa mais o ponto final nos títulos.

Não entendi o motivo que fez com que Maria Thereza me enviasse o texto para que eu corrigisse, já que ela tem um dos melhores textos que já li. Sem erros de concordâncias nominal ou verbal, sem erros ortográficos, com coesão e fluidez. Mas aí, lendo o texto daquele sábado, percebi que a estética era um tanto quanto importante para ela. Não que estivesse usando a pontuação certa. Mas o mesmo amor que ela tem pelos pontos e pelas fontes em itálico, é o ódio que tem pelas aspas. As duplas, usadas para citações. As aspas simples, usadas dentro das aspas das citações – uma citação dentro de outra citação – MT até simpatiza. Acha minimalista e respeitadora.

Lendo, percebi que tudo é questão de costume e, como dizem os médicos, mudanças de hábitos devem ocorrer. Quase 20 anos trabalhando em televisão me fizeram usar a pontuação para dar entonação ao texto. Ponto de exclamação, por exemplo, significava, no meu texto para televisão, que, naquele momento, deveria haver uma certa dramaticidade na voz. Até que a Adevania Silveira, nossa editora aqui, me fez repensar os dramas nos textos escritos para impresso. Confesso que também tive resistência, no início. Hoje me acostumei e o ponto de exclamação só entra, mesmo, em caso de drama extremo.

Apesar de achar que Maria Thereza, que tem um texto impecável, ainda vai sofrer com a pontuação, as aspas e as fontes itálicas, mais cedo ou mais tarde – eu acredito nesta última data – ela aceitará usá-las da forma correta e não apenas para garantir a estética no que escreve, ou para demonstrar seu atual estado de humor. Ou a ausência dele. Se a coisa persistir, além de continuar firme no processo de convencimento, terei de indicar um psiquiatra para que ‘o texto’ de Maria Thereza passe a ser, além de claro e coeso, também: correto!!! Ou, o que também acredito, numa influência tremenda a outra mudança gramatical da língua portuguesa que possa beneficiar a estética de quem demonstra, mais que palavras, a emoção no que escreve.

1 comentário

Maria Thereza

Muito mais tarde do que você imagina, Rimene. E você me deu uma boa ideia. Vou levantar a bandeira da pontuação emocional! Vamos ler o humor da pessoa junto com o texto! Um milhão de beijos!
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