Designer natureba

A convite de Maria Abadia Haich, o arquiteto e designer Carlos Motta esteve em Goiânia para um encontro descontraído com profissionais da área, recheado de boas histórias

O arquiteto e designer Carlos Motta esteve, em março, no Armazém da Decoração, para o lançamento de uma nova linha de móveis e um bate-papo descontraído com profissionais convidados pela dona da concept-store, Maria Abadia Haich. O designer natureba veio acompanhado de Guido Otte, empresário da Butzke - a primeira empresa do país especializada em móveis de madeira certificada pelo selo FSC (Conselho de Manejo Florestal), de Timbó (SC), e uma das fabricantes de algumas linhas de móveis do designer.

Intermediada por Maria Abadia e o publicitário e fotógrafo Jean Bergerot, a conversa girou em torno de design, mercado, processos criativos e intuitivos do design moveleiro, entrecortada por deliciosas passagens de sua vida - a família, os amigos, o surfe e o trabalho, elementos intimamente ligados à sua arte-, e que renderem boas risadas. Separamos aqui os melhores trechos da conversa. Senhoras e senhores, com vocês: Carlos Motta, em primeira pessoa.

CRIAÇÃO

"Uma madre me fez escrever com a mão direita, apesar de ser canhoto, o que me deixou com letra e grafismo péssimos. Sou disléxico, tenho dificuldade em aprender, não lembro de nada da escola. Mas sobrou uma coisa boa de relação, comunicação, de entendimento, que foram boas pra eu estar vivo. O meu processo de criação é muito intuitivo, não-técnico. Nunca fui um bom gráfico, nunca tive um desenho, um grafismo muito expressivo, a tal ponto que isso me inibiu. No início do meu trabalho me prejudicou muito. Eu era um estudante e via os outros colegas desenhando super bem, fazendo desenhos lindíssimos, perspectivas, desenhos tridimensionais maravilhosos e o meu desenho era um garranchinho inibido, fraquelinho, super anêmico. Eu falei: 'caramba"! Mas depois percebi que tinha habilidade quando ia trabalhar na oficina e passava para o tridimensional. Então comecei rapidamente a aprender marcenaria, e nesse processo de aprender marcenaria meu trabalho deu um salto, porque eu entrava na oficina e fazia alguma coisa e chegava num resultado. Foi só no segundo ano de Arquitetura, na aula de Desenho do Objeto, que percebi que o desenho, por mais garrancho ou anêmico que fosse, tinha a capacidade de pré-resolver o que eu faria na oficina antes de chegar no tridimensional e usar medidas exatas para o trato do nosso corpo no móvel."  

Nunca fui um bom gráfico, nunca tive um desenho, um grafismo muito expressivo

ESCALA DE VALORES 

"Fui estudar marcenaria na Califórnia. Sempre falo que me salvei por causa da contracultura, e pode parecer estranho porque foi uma época bem louca de drogas, de ser cabeludo, surfista, me separei de tudo, de pai, de mãe, me embiquei por aí no mundão e foi exatamente isso que me salvou, foi exatamente aí que comecei a criar uma escala de valores, que me deu uma base muito bacana. Nessa época a ponta da lança estava na Califórnia e foi pra lá que eu me mandei, porque lá tinha o sex & drugs & rocn n’ roll, só que ao mesmo tempo comecei a descobrir qual era a maneira de ser mais saudável , descobri a ioga, a alimentação natural, fortaleci o surfe, pensei muito no organismo, na parte espiritual, e de alguma maneira, tudo aquilo que eu comecei a fazer começou a ser muito ligado uma coisa à outra. Lá também fiz curso de natação e parto. Fiz o parto dos meus quatro filhos (risos). Eu chegava com as mãos grossas de marceneiro para fazer aula de parto. Tempos depois, um médico baiano descobriu que havia um cara em São Paulo que sabia fazer parto e cadeira, me encomendou uma cadeira de madeira pesada para partos embaixo d’água e a primeira foto que ele me mandou foi da cadeira em cima da Brasília dele, que ele usava para fazer os partos na região."

Eu chegava com as mãos grossas de marceneiro para fazer aula de parto

MODA

"As peças que faço têm que ter uma carga afetiva, como eu acredito que têm, ela passa a ser atemporal. Ela não é da moda, que daqui há 5 anos não tenha coragem de vendê-la. Tenho calça jeans há 15 anos, coitada, está puída, ralada, mas está lá. Adoro ela porque é exatamente o que eu procuro. Faz parte, cada vez mais, da nossa realidade no planeta, ter poucas coisas, porque nós somos muitas pessoas e o planeta está exausto, está exaurido, não aguenta mais gerar matérias-primas pra responder às necessidades de nós todos. Então passou a ser muito cafona, feio e equivocado você começar a ter coisas a mais do que você precisa. Você precisa ter exatamente aquelas coisas de que precisa e que essas coisas sejam de altíssima qualidade, com um afeto muito grande, que a coisa seja longeva. No design a gente tem de tomar muito cuidado para não fazer peças que induzam muito, que instiguem a venda pela venda, o que quero é que as pessoas tenham aquilo como atemporal, que você, seu filho, seu pai, seu avô, todo mundo vai sentar ontem, hoje, amanhã, vai sentar pra comer, para trabalhar. Então,  vou fazer uma cadeira que dure muito, porque a postura correta eu acredito que sei qual é, a matéria-prima está correta. A estética legal é quando se é verdadeiro."

No design a gente tem de tomar muito cuidado para não fazer peças que induzam muito, que instiguem a venda pela venda

ESTILO DE VIDA

"Tem gente que me reprime, às vezes, dizendo que me visto de maneira desrespeitosa, com as camisetas cortadas, com as calças largadas. Mas não é isso, é o contrário, se eu estiver coerente com aquilo que eu busco de conforto para mim, no meu corpo, para eu estar cada vez mais presente para você, da maneira mais verdadeira e amorosa com todo mundo, então vou me apresentar da maneira que acho mais legal, ao invés de seguir algum dress code. Eu já vi passar na rua peruas super cafonas, mas ela está tão na dela, tão inteirona, toda daquele jeito, eu falo ‘pô, que barato né, taí uma figura que está na dela’, e de repente pode passar uma pessoa que está toda chiquérrima e tal, mas está toda trupicando, não está na dela. Essa é mais cafona que a outra."

Tem gente que me reprime, às vezes, dizendo que me visto de maneira desrespeitosa

DESIGN BRASILEIRO

"O brasileiro está olhando mais para dentro do Brasil, em todas as áreas. A história do design brasileiro é recente, e antes, os designers daqui copiavam muito o design de fora e havia os judeus-europeus que vieram com uma carga muito pesada de sofrimento de vida, fizeram coisas maravilhosas que foram incorporadas ao design brasileiro, porém, elas não têm a expressão brasileira, eles não sabe o que é um sabiá ou uma jabuticabeira, isso não faz parte do acervo afetivo dele. O Brasil tem 500 anos, quando Sérgio Rodrigues fez a poltrona Mole, que é dos anos 60, ele foi o primeiro a chegar num resultado muito personal do Brasil, ele colocou na Mole o jeito do brasileiro, e isso é peculiar, porque uma poltrona é muito pouco diferente de qualquer outra poltrona no mundo inteiro."

Quando Sérgio Rodrigues fez a poltrona Mole, que é dos anos 60, ele foi o primeiro a chegar num resultado muito personal do Brasil, ele colocou na Mole o jeito do brasileiro

ASTÚRIAS

"Quando criei a Astúrias queria uma peça com corte simples e com o menor impacto ambiental possível. A poltrona Astúrias é de madeira de demolição e são duas, existe uma fixa e uma de balanço, e depois ela acabou puxando toda uma linha de sofás, de dois, três, quatro lugares. A poltrona é vendida no mundo todo e é muito copiada. Se você me perguntasse: ‘ao longo dos seus 37 anos de trabalho, qual a peça mais emblemática, a que mais representa o que você vem fazendo?’, sempre seria difícil de responder. É a mesma coisa de perguntar de qual dos meus quatro filhos eu gosto mais, eu vou chorar lá no canto e não sei o que vou responder. Mas a Astúrias é a minha peça mais pura, emblemática, leva com maior força tudo o que acredito."

Astúrias é a minha peça mais pura, emblemática, leva com maior força tudo o que acredito

ESSÊNCIA

"A gênese do meu trabalho é a responsabilidade ambiental e a responsabilidade social. Eu nunca fui um bom estudante e talvez por isso tenha me envolvido lentamente com educação. O meu ateliê em São Paulo é um ambiente de aprendizado, capacitei muita gente que hoje dissemina o trabalho.  É surpreendente a habilidade que o brasileiro tem de aprender e fazer com excelência quando é bem ensinado. Divido o lucro de tudo o que produzimos para toda a cadeia produtiva do ateliê. E com isso o pessoal quer ter gente efetiva ao lado, porque o lucro dele é dividido. Antes eu tinha uma coisa negativa com o lado comercial das coisas, hoje percebo que isso tudo é muito bonito, de cada um ter o seu papel contributivo no mundo e ganhar por isso."

1 comentário

Marilena Gomes

Maravilhoso. Exemplo de vida atual. Simplicidade sem modismo, sem esnobismo. Tambem sou canhota mas fui obrigada a usar a direita. Me identifiquei com a historia desse ser afetivo. Gostei da apresentacao dele, na primeira pessoa, atraves da Roberta Klein. Parabens!
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