A marmelada Santa Luzia são embaladas em caixinhas de madeira | Fotos Edgard Soares
A marmelada Santa Luzia são embaladas em caixinhas de madeira | Fotos Edgard Soares

Ah, se ela falasse francês!

Se tivesse sido inventada por um chef francês, amante da cuisini du terroir, é possível que a marmelada Santa Luzia já tivesse sido alçada ao lugar de merecida glória no altar das sobremesas regionais

No país onde a gastronomia é uma das maiores referências da França no mundo, um doce que fosse fabricado há dois séculos e que estivesse diretamente ligado à história de um povo, jamais permaneceria no ostracismo. Se tivesse nascido petit-gatêau, creme brûlée ou macaron, não resta dúvida de que o lugar da marmelada Santa Luzia fosse à mesa de uma fina pâtisserie. O doce feito artesanalmente de purê de marmelo na região de Luziânia (GO) já teve seus dias de glória no passado. Conta a história que D. Pedro II era louco pela sobremesa originária de Goiás e a recebia regularmente no Rio de Janeiro. A predileção está documentada no livro Viagem no Interior do Brasil – Empreendida nos Anos de 1817 a 1821 (Ministério da Educação e Saúde-INL, Rio de Janeiro, 1951), de autoria do médico, geólogo e botânico austríaco Johann Baptist Emanuel Pohl.

A marmelada Santa Luzia é um clássico da doceria brasileira, mas jamais obteve o devido reconhecimento. Bem diferente da boa vida da prima rica e famosa, a marmelada branca de Odivelos, cidade portuguesa da região metropolitana de Lisboa. O povo de lá orgulha-se tanto do seu doce exclusivo que criou uma confraria para promovê-lo como patrimônio histórico, cultural e gastronômico, com direito à fanpage no Facebook e embalagens sofisticadas.

Se não bastasse tanta injustiça e indiferença, a produção da marmelada Santa Luiza se encontra em declínio. O doce fabricado por pequenos produtores estabelecidos em municípios goianos na divisa com o Distrito Federal, - entre eles famílias de comunidades quilombolas, descendentes de escravos afro-brasileiros do povoado do Mesquita -, é um dos 25 produtos brasileiros ameaçados de extinção, mas com potenciais produtivos e comerciais reais. A sentença de quase morte à marmelada Santa Luzia está anotada no catálogo mundial da Arca do Gosto, um projeto da Fundação Slow Food para a Biodiversidade que busca documentar produtos gastronômicos especiais, que estão em perigo de desaparecer.

No interior da fábrica, dois funcionários trabalham na produção

Mas se por um lado há quem coloque em xeque a sobrevivência da marmelada Santa Luzia, na outra ponta há quem aposte na continuidade da fabricação, assim como a manutenção do mercado consumidor, um tanto tímido, porém fiel. Um deles é Leopoldo Antônio Gonçalves, 53, membro de uma família que há quatro gerações trabalha na fabricação do doce, na Fazenda Pindaibal, localizada na zona rural da Cidade Ocidental, a menos de 50 km do Plano Piloto de Brasília. “A marmelada não está em extinção. Produzimos a mesma quantidade de sempre. Acontece que antes havia muita gente produzindo pequenas quantidades e hoje a fabricação está concentrada em apenas quatro produtores”, justifica Leopoldo, que se tornou a voz dos produtores da região.

O DOCE É UM DOS 25 PRODUTOS BRASILEIROS AMEAÇADOS DE EXTINÇÃO, MAS COM POTENCIAIS PRODUTIVOS E COMERCIAIS REAIS

 Como forma de valorizar o doce, que por mais de 200 anos sustenta grande parte das famílias na região, Leopoldo prepara-se para escrever um livro contando a história da marmelada Santa Luzia onde pretende desmistificar, segundo ele, equívocos sobre sua origem. Um deles é a de que a primeira muda de marmeleiro teria sido trazida por boiadeiros de Minas Gerais. “Não existiam boiadeiros nessa época”, contesta Leopoldo. O produtor relata que o marmeleiro de origem portuguesa (Cydonia oblonga Miller) chegou ao Brasil em 1532 pelas mãos do militar português Martim Afonso de Souza e foi introduzido em Goiás no século 18, por volta de 1790, primeiramente na Fazenda Engenho das Palmas, então município de Santa Luzia, hoje Luziânia. Vem daí o nome do doce. Bem adaptados ao clima e com reprodução por estaquias, os marmeleiros rapidamente se espalharam, chegando a existir quase mil pés por propriedade.

 A colheita do marmelo se dá nos meses de dezembro a fevereiro, mas graças a uma câmara fria, Leopoldo consegue produzir a marmelada o ano inteiro, conservando a polpa do fruto, pré-cozida e armazenada em latas de 18 litros, na temperatura de 10 graus centígrados. Parente da pêra, da maça e do pêssego, o marmelo é cozido com a casca, formando um purê que depois é apurado juntamente com a mesma quantidade de açúcar e água. Todo o processo é feito no mesmo modo antigo usando fogo à lenha e tacho de cobre.

Na casa da sede, a mãe de Leopoldo, dona Zilda, 77, comanda o fogão a lenha

 A receita do doce que vem sendo passada de pai para filho é bem simples e rápida de fazer. Na pequena fábrica de Leopoldo, dois funcionários se revezam no passo-a-passo de ferver o açúcar com a água até o ponto de bala, acrescentar a polpa do marmelo, apurar e, em seguida, vertê-lo nas caixinhas de madeira. O processo dura apenas 40 minutos. Depois de o doce esfriar é a vez de cobri-lo com uma película plástica, fechar a caixa e fixar a etiqueta. O contato direto com a madeira conserva a marmelada, porém Leopoldo se viu obrigado a mudar a tradição da embalagem para atender especificamente à uma exigência do consumidor brasiliense. A marmelada que segue para a capital federal recebe um invólucro plástico antes de ir para a caixinha.

D.PEDRO II ERA  LOUCO PELA SOBREMESA ORIGINÁRIA DE GOIÁS E A RECEBIA REGULARMENTE NO RIO DE JANEIRO

Casado com Elzilene de Carvalho Alves Gonçalves, 53, e pai de um casal de filhos, Leopoldo deposita na filha Andréia, 32, a certeza na continuidade do negócio já que o filho Vandré, biólogo de 30 anos, se dedica à criação de peixes que abastece o zoológico de Brasília e uma peixaria na vizinha Cidade Ocidental. Na Fazenda Pindaibal, além da mulher e dos filhos de Leopoldo, moram os pais Benedito Gonçalves, 80, e Zilda Rodrigues Gonçalves, 77. Em fazendas vizinhas vivem o tio, José Gonçalves Soares e o primo Carlúcio, que igualmente fabricam a marmelada Santa Luzia.

O grande tacho onde o doce é apurado

 A fábrica de Leopoldo, segundo ele, é a que produz maior quantidade. São 500 caixas de 800 e 400 gramas por semana. Além do mercado de Brasília, a marmelada produzida na Pindaibal chega a Luziânia, Goiânia e algumas localidades no interior goiano. Toda a produção vem da colheita de 500 marmeleiros espalhados pelos oito alqueires da propriedade, inclusive no quintal da casa principal. Uma planta adulta produz até 30 quilogramas de frutas que resulta em 30 de marmelada. A caixa de 800 gramas é vendida por R$ 12 no atacado. Como se vê, o negócio é bastante rentável. No entanto, o fazendeiro não planeja aumentar a produção ou abrir novas frentes de comércio. “O que ganho já dá para pescar e viajar”, desconversa.

O modo antigo de cozinhar em fornalha ainda é mantido

A área de cultivo do marmeleiro no Brasil é cada vez menor. Hoje se limita a certas regiões de Goiás, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e São Paulo. Goiás produz atualmente 12% da safra nacional de marmelo. Mas já representou muito mais noutros períodos. Muitos produtores abandonaram a atividade pelas dificuldades de cultivo do marmeleiro. A planta foi atacada por uma praga, a entomosporiose ou requeima. A gradativa falta da mão de obra de podadores também desanimou os produtores. “O podadores antigos morreram e os novos não querem saber do trabalho”, explica Leopoldo.

O fogão a lenha, sempre fumegante, a marmelada e o queijo minas para acompanhar

 Como atividade de subsistência, a produção da marmelada Santa Luzia não conta com qualquer tipo de incentivo oficial. Existem duas associações de produtores na região: a Associação de Produtores do Mesquita e Associação dos Produtores Rurais do Xavier, envolvendo cerca de 30 produtores de marmelo e 10 produtores de marmelada. Mas nenhuma delas tem voz ativa, segundo Leopoldo. O produtor espera que com o livro, ainda sem data para ficar pronto, a marmelada Santa Luzia consiga conquistar o merecido reconhecimento, especialmente por se tratar de um produto que sustentou, e ainda sustenta, a história e a vida de tantas gerações. “Estou conversando com o povo mais antigo, pesquisando documentos, para escrever a verdadeira história da marmelada Santa Luzia”, conta Leopoldo enquanto mostra uma pasta repleta de papéis com informações que já coletou para o livro. O registro da história do doce e a filha do produtor se mantendo à frente do negócio são as duas razões pelas quais Leopoldo está convencido de que, na contramão do que se propaga, a marmelada Santa Luzia está longe de desaparecer.

Leopoldo com a mulher, Elzilene, e a mãe, Zilda: tradição da marmelada chegou à terceira geração


2 comentários

Virginea Liz Soares

Matéria de alto valor cultural! Parabéns à jornalista e ao fotógrafo.

humberto marra

A marmelada Santa Luzia é um ícone do nosso estado, consumi-la e implementar o doce nos cardápios contribuirá para sua vida longa.
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