Cabo da Roca, o ponto mais ocidental da Europa, imortalizado por Luís de Camões no Canto VIII de Os Lusíadas | Imagens: Rimene Amaral

Cabo da Roca, o ponto mais ocidental da Europa, imortalizado por Luís de Camões no Canto VIII de Os Lusíadas | Imagens: Rimene Amaral


Onde o vento faz a curva

O lugar onde a terra acaba e o mar começa, como escreveu há quase 500 anos Luís de Camões, tem espetacular pôr do sol, vento forte e uma gastronomia capaz de levar até os fortes ao pecado da gula

Fica logo ali, numa pontinha de terra próxima a Sintra, a 40 quilômetros a oeste de Lisboa. "Nadando, chega-se à terra do Tio Sam", brinca Pedro, o rechonchudo guia com cara de líder de excursão, que nos acompanha pela região enquanto narra, com seu português carregadíssimo, a história do lugar. Chama-se Cabo da Roca, o ponto mais ocidental da Europa, imortalizado por Luís de Camões no Canto VIII de Os Lusíadas.  "Donde a Terra acaba e o mar começa", escreveu o poeta.  Antes de explorar a falésia que se ergue até cerca de 140 metros sobre o mar, onde estão um dos faróis mais antigos de Portugal e uma loja para turistas, escolhemos experimentar as especialidades do famoso Refúgio da Roca, restaurante que há 40 anos centra seu cardápio no que o mar pode oferecer.

O lugar não poderia ser mais acolhedor, com rústicas paredes de pedra e teto de madeira. Não tive dúvida quanto à escolha do prato. Para começar, lulas e camarões assados na brasa, acompanhado de refrescante vinho verde. Pedro sugeriu-me que aguardasse o "churrasco luso" saboreando um inigualável queijo azeitão, da Serra da Estrela, de textura cremosa, com pão de casca dura, extremante saboroso, e antepastos de anchovas e de ervas, azeitonas pretas miúdas mergulhadas em azeite, tradicionais alheiras servidas generosamente numa travessa de terracota e um prato de sardinhas assadas.

“O lugar não podia ser mais acolhedor, com rústicas paredes de pedra e teto de madeira”

A maneira peculiar de servir o prato principal desvenda o mistério do nome: "Lulas na telha". Acima da mesa de madeira, um gancho sustenta os espetos enquanto se come. Prático e tentador. Um marketing medieval que funciona muito bem até os dias de hoje. Os clientes quase nunca ficam na primeira rodada. Pedi a conta não sem antes cometer o pecado da gula, provando um travesseiro, tradicional doce da região. A comelança saiu em torno de 50 euros. Para uma possível segunda experiência gastronômica no Refúgio, anotei a sopa rica do mar, robalos grelhados, arroz de marisco, parrilhadas, espetos de carnes mistas e cabrito grelhado, excelentes sugestões da casa.

A poucos passos dali, o cenário se abre para um descampado coberto de flores coloridas e de diferentes perfumes. Acredite, é possível definir cada fragrância de acordo com as cores. Tudo isso, como dizem os lusitanos, "a rodear" o imponente farol do século XVIII à beira do Atlântico. O silêncio barulhento do vento forte traz o cheiro da maresia. As ondas que se quebram contra as rochas abafam o ruído dos pássaros que habitam o lugar. Debruçar-se sobre o guarda-corpo de madeira e encarar a imensidão do horizonte é qualquer coisa como sentir a liberdade invadir a alma. Há grande risco de abraçar essa sensação e achar que se pode planar como as gaivotas que voam sustentadas pelo vento que faz a curva.

Por causa da diversidade de iguarias marinhas e da ligação que os nativos têm com elas, o Cabo da Roca também é conhecido como Focinho da Roca, ou ainda Promontório da Lua. Nada mais poético. A melhor hora para visitar o local é ao entardecer, de onde se pode assistir ao espetacular pôr do sol sobre o Oceano Atlântico. Por integrar o Parque Natural de Sintra-Cascais, o lugar encanta fotógrafos e apaixonados por mergulho, surf, escaladas e trilhas. Aliás, empreender longas caminhadas pelos campos floridos é mais do que recomendável, especialmente para quem afunda o pé na jaca, ops, nas lulas na telha.

Como chegar, a partir de Lisboa

A melhor forma de conhecer lugares como o Cabo da Roca é contando com quem conhece e dispondo de tempo suficiente para explorá-los. Empresas de guias turísticos são ótimas opções. Geralmente, as que são encontradas em sites de busca têm a avaliação dos serviços que costumam ser muito baratos. Um furgão, com toda comodidade, pode passar o dia por conta de quatro a cinco pessoas por módicos 60 Euros por pessoa. Vale a pena, já que, além do conforto, os guias informam, falam da história e apresentam os melhores lugares, longe do tumulto de turistas deslumbrados. Para quem gosta de independência, pode ir por conta própria. Partindo de Lisboa, vá até a estação de metrô (metro) Cais do Sodré, na linha verde, e na mesma estação pegue o trem (comboio) em direção a Cascais. Chegando a Cascais, pegue o ônibus (autocarro) número 403, Scotturb, que tem uma parada (paragem) no Cabo da Roca.

SERVIÇO
Restaurante Refúgio da Roca
Endereço: Estrada do Cabo da Roca 27, 2705 , Sintra, Portugal
Fone: +351 219 289 682


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