Na sala com a Bá

A dona da concept store AZ Decor abre sua casa para The Book e mostra a coleção de preciosidades do design nacional e internacional garimpada ao longo da vida

Enquanto seguia para o endereço da casa que íamos fotografar para a coluna Casas Reais desta edição, me entreguei ao exercício mental que costuma anteceder este tipo de reportagem: imaginar como seria o habitat da nossa entrevistada. Em se tratando da sócia-proprietária da AZ Decor, uma das maiores concept stores de Goiânia, com um acervo digno da wishlist de todo grande colecionador de móveis e objetos de design, era bastante natural pensar que iria me deparar com um big apartamento. Grande o bastante, deduzi, para abrigar uma infinidade de móveis assinados que estão ao alcance da mão da dona da casa. Cada mês uma mesa de jantar distinta. Cada semana, objetos diferentes povoando os ambientes. Doce ilusão. Maria Abadia Haich, a Bá (que também é capa dessa edição), 67, é uma mulher prática, mas tão prática ao ponto de dar uma lição de life&style para dias atuais.

Cravado no coração do Setor Bueno, o apartamento de 230 metros quadrados reúne, sim, uma infinidade de obras, objetos e móveis. A maior parte com pedigree, é verdade, mas absolutamente nada está ali com o intuito de apenas decorar. Tudo tem a sua história e cada peça parece ter passado por uma espécie de "curadoria do coração" antes de ganhar seu lugar de honra na ampla sala. Como o majestoso buffet de jacarandá conservado desde a época em que Bá se casou, na década de 60. O móvel divide a atenção com a obra O Tempo e o Vento, da artista gaúcha Heloísa Crocco, e o vaso de resina de poliuretano do genial designer e arquiteto italiano Gaetano Pesce.

“Tudo tem a sua história e, ao que parece, cada peça passou por uma espécie de 'curadoria do coraçao' antes de ganhar de ganhar lugar de honra na imensa sala”

Separada e com os três filhos casados, Maria Abadia optou por um apartamento pela comodidade e segurança. Está próxima dos locais para onde tem de se mover no dia-a-dia e sente-se tranquila ao sair para as quase dez viagens que faz anualmente. Bá é a única moradora, mas não vá pensando que por isso a vida por ali é calma. Não. A     casa da Bá é ruidosa. Como boa descendente árabe, a empresária cultiva a hospitalidade. Está sempre cercada dos filhos, dos seis netos e de amigos que são convidados para almoços e jantares de longa duração. "Sou muito aberta, minha casa é muito aberta também", sentencia. A nossa sessão de fotos, por exemplo, só começou após servir café, suco e bolo caseiro.

O imóvel passou por uma reforma radical, com muito quebra-quebra para unir ambientes adjacentes. O designer de interiores Genésio Maranhão, juntamente com Neide Moreira, responsável pela execução da obra, conseguiram realizar o que a dona da casa tanto queria: fazer a sala de quase 100 metros reinar absoluta. Nela está exposta o acervo de uma vida e a representação do que há de melhor no design brasileiro, a grande paixão de Maria Abadia.

A decoração do apartamento ficou à cargo  da filha e sócia Daniela Haick Mallard. A sala tem distribuição circular, com o espaçoso sofá assinado pelo arquiteto Leo Romano ocupando o centro. Assim, foi possível acomodar diferentes nichos nos quatro cantos do ambiente. Ao lado dos janelões tomados pela vegetação, a mesa de jantar e as cadeiras Alvar Aalto são iluminadas por pendentes Tom Dixon. "Meus netos fazem a festa quando estão aqui", conta Bá, acrescentando que na reforma do apartamento unificou as salas de TV e estar para dar lugar a um espaço de convivência. "Aqui vejo TV, leio e recebo visitas", conta.

Do design brasileiro, Bá garimpou peças de grandes autores pelos quais revela paixão incondicional, como o carioca Sérgio Rodrigues. Estão lá três exemplares da Mole e a famosa Chifruda, a mais rara e espetacular poltrona do arquiteto e designer, criada em 1962, reeditada em série limitada e numerada, o sonho de qualquer colecionador. Da precisosa coleção de objetos, um deles não leva a assinatura de ninguém famoso, mas é guardado como um tesouro pela empresária: uma bolsa de pele de crocodilo de 1930, que pertenceu à sogra. A maior prova de que quem manda no pedaço é mesmo o coração da dona da casa.


No centro da sala, o sofá desenhado por Leo Romano ganhou mais cor com as almofadas Missoni; banco de madeira revestido de lã natural das designers Tina Moura e Lui lo Pumo


Pendentes  Tom Dixon iluminam a mesa de jantar e cadeiras Alvar Aalto. Sobre esta, jogos de cestaria africana feita de fios de telefone; ao fundo, tapeçaria chilena, presente de Leo Romano


Estante Sapiens, do italiano Bruno Rainaldi, divide a atenção com o pinguim de resina Daniela Ktenas, mesa Pitágoras e obras de Kboco, Mateus Dutra e Marcelo Solá


Poltrona Chifruda de Sérgio Rodrigues, poltrona Panton editada pela Vitra, mesa irmãos Campana e tela de Leo Romano


Sobre o aparador feito de prancha esculpida pelo artesão Ulisses Ferreira, mesa Pinocchio de Luigi Baroli e Enrico Baleri, e pedra de socar quibe, herança do avô, faz a vez de cachepô; sob o móvel, anta de Siron Franco, banquetas Elephant de Sori Yanagi, mesa Ovo e cachorro da Slide Design; tela de Christiane Brandão


​Sobre a mesa de Porfírio Valladares, objetos garimpados em viagens como a Santa Ceia do artesanato paraibano; cachepôs de Biblos, tábua de carne da Tunísia; esculturas de músicos de Olinda; vaso da Ilha de Páscoa e miniaturas de mobiliário australiano; cadeiras Girafa, de Lina Bo Bardi, da Marcenaria Baraúna

FOTOGRAFIA | EDGARD SOARES

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