Basíssima Haich

Maria Abadia Haich não pisa na terra. Seu habitat natural está localizado a alguns degraus acima do lugar comum.

Maria Abadia Haich não pisa na terra. Seu habitat natural está localizado a alguns degraus acima do lugar comum. Tem alma de artista, mas raciocina como um comerciante sagaz. É workaholic, mas faz do trabalho um parque de diversões. É exigente e centralizadora – segundo a própria –, mas sabe como ninguém cultivar amigos. Aos 67 anos é vaidosa, mas nunca fez plástica. Pratica yoga e pilates, mas não é nada zen e está sempre ligada nos 220 volts. Tudo isso faz dela um problemão para nós, terráqueos, especialmente quando temos a missão de entrevistá-la. Se descuidar, num piscar muda de lado e passa para o papel de entrevistadora. Mas tem o lado bom. Sabe aquele tipo de pessoa que nunca deixa espaço de silêncio entre a pergunta e a resposta, porque de tão bem resolvida não precisa pensar para falar?

Essa é a Bá, e Bá é o apelido pelo qual atende os amigos íntimos, os menos íntimos e a quem quer que acabe de chegar. Nasceu e cresceu em Uberlândia (MG), mas nem de longe representa a conhecida natureza discreta dos conterrâneos. Filha única de pais árabes, aprendeu com a mãe a ser “dona da própria alma”. A sócia-proprietária da concept store Armazém da Decoração é uma mulher impulsionada pela vida, pelo trabalho, família, amigos e tudo o que é produzido pelo mundo do design, sua maior paixão e centro do seu negócio. Embora sinta-se realizada, cultua sonhos. Um deles é morar uma temporada em Paris.

Abadia é uma mulher de superlativos e tem muito a ensinar. “A Bá é um presente que a vida e minha escolha profissional me deram. Sentimos alegria um no outro. Compartilhamos. E eu, aprendo”, revela o arquiteto Leo Romano, parceiro de trabalho e habitué da vida social da empresária. Na entrevista a seguir, Maria Abadia percorre a sua história e fala sobre trabalho, família, medos, envelhecimento e, sobretudo, sobre a sua maior paixão, o design.


Como foi o início da sua trajetória com o design?
Abri o Armazém em 1998. Tinha apenas 100 metros de loja, que era a vitrine. Tive de fazer a opção de importar porque não tinha grandes mobiliários. Comecei a trabalhar dentro de uma linguagem de acessório, que é uma coisa que encanta muito. Devagarzinho, a gente foi crescendo, ampliando a importação porque era um momento propício para importar, o dólar era baixo. Depois comecei a loja dentro de uma perspectiva de design. Era um momento diferente na minha vida e um momento diferente do design na história do Brasil.

Você vem de uma formação diferente.
Sou assistente social e musicista. E trabalhei no INAMPS (o atual SUS). Estudei música desde os quatro anos. Fui professora de história da música e de piano, durante muitos anos. Tive uma formação ligada à arte e fui aluna do Camargo Guarnieri.

Mas não conhecia propriamente o design...
Não, era muito ligada à pintura e obras de arte. Quando vim para Goiânia, queria abrir uma galeria. Era um sonho, porque eu era muito ligada aos pintores mineiros. Em 1980 trouxe para Goiânia o consórcio de quadros. Foi uma forma de sobreviver. Naquela época, obra de arte era caríssima. Ou tinha muito dinheiro para comprar ou não comprava. Não existia a facilidade de comprar parcelado.

Sempre se interessou pela estética?
Sempre tive muita ligação com casa. Uberlândia é uma cidade muito requintada e eu convivi numa época de muito refinamento. Esta convivência abriu meu olhar para a beleza interior da casa. Para ter ideia, as minhas cadeiras de casamento eram do Bernardo Figueiredo. Era uma época muito importante, de evolução cultural. A gente tinha um relacionamento muito bom com os tops do pensamento político. Existia uma efervescência cultural muito grande. Sou fruto dessa época.

“O mundo era pequeno, mas muito livre. Apesar de árabe, meu pai confiava demais e me soltava no mundo”

Você teve uma ligação muito forte com sua mãe, é verdade?
Sim, ela foi a transmissora de cultura. Nós éramos como ‘dois bicudos não se beijam’, de personalidades fortes. Ela tinha 42 anos quando nasci. Fui um ícone na vida dela, uma criança fruto de um amor muito grande dela com meu pai. O mundo era pequeno, mas sempre muito livre. Apesar de árabe, meu pai confiava demais e me soltava no mundo.

Seus pais eram donos de um armazém?
Chamava Armazém Avenida. O Armazém (AZDecor) é uma homenagem ao meu pai. Era um atacadista de secos e molhados. Foi uma época muito boa, de conhecimento, de abertura, de poder ir para São Paulo todo mês. Com 15 anos ganhei meu primeiro Simca Chambord, que era o ícone de todo mundo, era mais que um BMW.

Podia dirigi-lo?
Consegui autorização do juiz para dirigir.

Você se casou em Uberlândia?
Sim, em 1966, aos 19 anos. Tive os dois primeiros filhos (Daniela e Marcela) em Uberlândia e o terceiro (Dener Júnior) em Goiânia. Permaneci em Uberlândia até 1972. Depois me mudei para Goiânia. Nesta época muitas famílias migraram de Minas para Goiás. Goiânia estava ampliando, dando oportunidade, mas tive muita dificuldade, levei um ano para me adaptar. Eu chorei muito, porque saí da proteção absoluta de uma cidade. Depois comecei a crescer pessoalmente e a enxergar o mundo de outra forma.

Você veio para dar aulas?
Não, eu vim porque, até então, era casada e meu marido teve a oportunidade de trabalhar aqui. Eu trabalhava em casa, dando aula de piano. Então comecei a trabalhar com o consórcio de quadros junto com uma amiga de Belo Horizonte. Depois resolvi voltar para a faculdade. Tinha só a escola de música e queria fazer direito. Cheguei a fazer até o vestibular, mas no meio do caminho quis fazer Serviço Social. Me formei em 1980.

Até 85 você trabalhou onde?
Trabalhei na Época Decorações, quando ela foi criada em 1981. A Edna (Martins) era muito minha amiga e me chamou para trabalhar lá. Deixei a loja em 1986. Depois, Pilar Blanco, Janete Cecílio e eu abrimos a Era Uma Vez Decorações. Ficamos nessa sociedade até 1997. No ano seguinte abri o Armazém em sociedade com a minha filha Daniela (Haick Mallard). Aí começou uma outra etapa de
vida porque o olhar era diferente. Havia passado em um concurso federal, em 1988, mas pedi exoneração. Fiz uma opção radical por empreender.

Aí você quis se dedicar só à loja?
Sim. Essa história de ser mercadora está no sangue mesmo. Eu acho que a melhor coisa que eu sei fazer na vida é vender.

Dá para ver que você é apaixonada pela empresa.
Sou apaixonada principalmente pelo que faço. E depois havia a possibilidade de novas curadorias e o mundo mudando. Na década de 90 mudou demais. Acontecia muita coisa ao mesmo tempo. O design estava começando. A casa tinha saído daquele patamar de coisa mais fechada, separada do dia a dia. Apareceram os Campana, o Sérgio Rodrigues, em 2000. Em, 2002 o Sérgio (Rodrigues) começou a ser reeditado. Ia ser a revolução de novo do design, um pensamento novo.

E houve a mostra do Sérgio Rodrigues...
Em 2002. Fui a primeira no Brasil a fazer uma mostra dele. Reinaugurei o Armazém com a fachada nova, com o Sérgio Rodrigues. E aí veio uma pesquisa incessante, alucinada, pelo design brasileiro.

Quais foram as mostras brasileiras que você trouxe?
Sérgio Rodrigues, Carlos Motta, Decameron, Marcenaria Baraúna, Pedro de Castro, os irmãos Campana com o lançamento dos livros. Trouxe o Ronaldo Fraga quando fizemos a relação de Minas (Gerais) antiga com a moderna. Aí começou uma série de instalações. Aprendi a ter esse olhar de cenografia quando comecei a ir para Milão. Entendi que existiam produtos maravilhosos e que eles precisavam ser apresentados de forma performática. Foi quando comecei a juntar as linguagens. Depois vieram outras pesquisas pelo mundo: Marrocos, Tunísia, Índia, Croácia, Europa, Estados Unidos. A partir daí o mundo perdeu as fronteiras. Como já tinha uma ligação muito grande com artesanato, fiz essa ligação do design com o artesanato. Também teve a Maria Helena (Estrada), que eu trouxe em 2000 para explicar para todo mundo o que era a feira de Milão, porque eu ia trazer coisas de lá.

Então você alinhavou tudo isso: o artesanato, a nova estética que começou na década de 90, a reedição do Sérgio Rodrigues, a ida para Milão...
Isso educou meu olhar. Foi um processo, uma educação constante. E a forma com que eu sempre apresentei era muito mais um show de apresentação. Sempre apostei em alguma coisa de vanguarda. O Armazém teve esta função em Goiânia, de abrir o caminho para o design. Isso é real.

"Aqueles vasos nas praças não têm explicação. É de uma pobreza estética absurda. É um olhar sem poesia, seco"

Qual foi a primeira mostra que você fez?
A do Genésio Maranhão. Antes dela foi a apresentação do cenógrafo Márcio Colaferro. Vi a instalação dele no SESC de São Paulo. Aos poucos, fui comprando a exposição. Demorei seis meses para comprar as peças. Quando acabei de pagar eu o chamei para fazer a instalação. Calaferro fez a curadoria dos produtos e montou a exposição.

Você consegue determinar um designer de que goste mais?
Tenho paixão pelo Sérgio Rodrigues, incondicional! Para mim, ele é genial. Amo o Carlos Motta também. Não desmerecendo nenhum outro, mas é uma opção radical. O Sérgio para mim é ícone. Eu tenho paixão por tudo que ele faz. Ele realmente foi um grande precursor e me ensinou demais. Fora a pessoa maravilhosa que ele é. Sérgio Rodrigues e Carlos Motta criaram uma nova linguagem.

Qual a sua opinião sobre o equipamento urbano de Goiânia?
Acho que tudo que é coletivo ainda é pouco ofertado. O olhar coletivo ainda não foi desenvolvido por quem comanda a cidade e o Estado. Existe uma tentativa, mas é tudo muito pobre. A gente merecia muito mais.

O que acha dos vasos de flores que foram colocados em algumas praças da cidade?
Aqueles vasos não têm explicação. É de uma pobreza estética absurda. É pobreza cultural, é um olhar sem poesia, seco.


O que falta à cidade?
A cidade é linda, tem muita vegetação, mas tem de ser olhada com mais refinamento e rigor. Porque quando se oferta, a população sabe respeitar. As flores transformaram a cidade, porque não com equipamento urbano de alta qualidade? Poderia haver concursos, incentivos às escolas de arquitetura e de design para poder interferir na cidade. Gente com gabarito nós temos, só que não se contrata. Isso é um absurdo. É uma questão política.

Se te dessem um espaço na cidade para fazer o que quisesse, o que faria? Por exemplo, uma praça?
Faria algo pela convivência. Adoro coreto. Adoro ver crianças brincando com segurança.

Além dos filhos, seu ex-marido trabalha na AZ. Funciona bem?
Funciona. Ele tem um respeito absurdo. É o financeiro da loja. Tenho um respeito enorme pela experiência de vida dele, como profissional liberal, uma pessoa de confiança. Também tem outra pessoa muito importante, que trabalha comigo desde 1988. É a Sandra, uma comadre minha, que já fez de tudo e hoje é nossa pós-venda. Chiquérrima! É a pessoa mais refinada que conheço. Eu a conheci quando a Dani tinha um ano de idade. Tenho um carinho enorme por ela.

É um grupo bastante ligado a você.
Muito ligado afetivamente e na luta pelo sonho. Todos são desse grupo de sonhadores, que quer fazer acontecer. Minha nora também trabalha aqui. A Saula, minha sobrinha, é gerente.
Você comentou que nunca fez plástica e que não tem intenção de fazer.
Não, mas posso mudar de ideia algum dia. Sou muito medrosa em relação a médico, porque sou muito alérgica. Não me acho nem melhor nem pior na autoestima. Tenho uma coisa muito segura dentro de mim, que foi passada pela minha mãe. Mas não tenho nada contra quem faz. Não tenho medo de envelhecer. A alma não envelhece.

E como cuida do corpo?
Faço pilates, musculação e caminhada. Tudo que fala que é para o meu bem-estar, eu faço. Sou muito perseverante. Até às 10h30 me dedico a estas coisas. Só chego à loja depois das 10h30. Sou muito disciplinada e isso aprendi com a minha mãe e com as aulas de piano. Isso me ajudou a ter foco. Não tenho medo de correr atrás daquilo que eu acredito e meu coração precisa bater sempre. Obedeço muito a minha intuição. Sei ouvir lá dentro. Não é o dinheiro que me mobiliza, mas a forma de fazer as coisas.Você falou que é espiritualista, mas frequenta alguma igreja?
Gosto de um rito, mas gosto de ser livre. Já fui muito católica, de comunhão diária. Com o tempo fui ampliando minha visão. Sou de ouvir todo mundo. Acho que tem gente muito interessante para te dar recado. Fico muito atenta às falas de pessoas interessantes. Gosto de rezar, me concentro para poder focar, porque às vezes vem o medo de alguma coisa, e quando bate a insegurança tento resgatar fazendo um pouco de meditação e seguro a onda.

Você tem dias de baixo astral?
Tenho alguns dias de medos. Quando esses medos humanos aparecem, lembro da minha mãe, rezo. Faço tudo aquilo que possa me fazer voltar para o eixo. Acho que a minha preocupação é não sair do eixo. Mas que tenho medo, claro que tenho. Mas tento não deixar me dominar.

Luta contra algum defeito?
Sim, sou muito impetuosa. Já melhorei muito. Era terrível. O que eu pensava eu falava. Hoje tenho mais requinte. Mas isso sempre foi minha luta. Sou ariana, custosa. É uma luta constante, eterna. Às vezes, até o jeito que tenho de falar as coisas é perigoso. Tem de ter muita força de vontade.

Já teve algum momento de crise, por exemplo, aos 30, 40 ou 50?
Não, a única época que eu tive medo, foi aos 42 anos. Meu corpo era perfeito até os 42, depois com as mudanças hormonais, levei um choque enorme. Foi a única vez, depois acomodou. Mas eu tive horror.

O que aconteceu, engordou?
Não, era essa coisa de repor. Mas depois isso passou, vi que era normal. Fui ficando ligada a esse negócio de alimentação. Tenho nutricionista, busco equilibrar essa parte, que é importante. Isso tem a ver com a saúde, mas é claro que quero colocar uma roupa e ficar bonita.

Essa foi a mudança mais radical?
Sim. Foi quando percebi que havia essa deficiência hormonal, e a libido diminuiu. Você tem de fazer reposição e isso é difícil. Vai mudando até sua forma de se aproximar. Entendi que a sexualidade está em tudo. Não está só na parte de sexo. Onde tem poder de transformação tem sexualidade. Tive a impressão que sumiu toda a minha força.

Não quis se casar novamente?
Tive um segundo companheiro durante 17 anos. Depois que me separei em 1980, conheci essa pessoa e em 1985 começamos a ficar juntos. Acabamos em 2000. Desgastou a relação. Não quero citar o nome, mas foi importantíssimo na minha história. Foi um referencial muito importante na vida do meu filho. Nunca mais o vi.

E em relação à moda, você consome muito?
Sou muito ligada aos designers mundiais de roupa. Esse é um luxo que eu tenho.

Tem um grande sonho que queira realizar?
Viajar, que eu amo. Conhecer o mundo. Preciso ser mais persistente, aprimorar o inglês e o francês, que são o passaporte da liberdade. Eu já estudei muito, mas essa é uma timidez que tenho: vergonha de falar. Como gosto muito de viajar, sempre fico encostada na Daniela. Tenho vontade de morar seis meses em Paris. Não mais que isso porque não suporto inverno.

FOTOGRAFIA | EDGARD SOARES

1 comentário

Roberta Klein

Sen-sa-cio-nal! Que história de vida, que mulher inspiradora.
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