Fotógrafo das sensações

Reverenciado pelo trabalho autoral, Paco espalha seu talento pela Europa, América e Ásia em editoriais de moda, anúncios e exposições.

Se você é leitor da Vogue, Harper’s Bazaar, Vanity Fair ou Elle, é muito provável que já tenha sido impactado pelas imagens de Paco Peregrín, o fotógrafo de moda cuja ascensão nem de longe foi abalada pela atual crise que assola a Europa, especialmente na Espanha, seu país natal.

Reverenciado pelo trabalho autoral, Paco espalha seu talento pela Europa, América e Ásia em editoriais de moda, anúncios e exposições. Sua alentada carteira de clientes − entre eles Chanel, L’Oréal Paris, Adidas, Nike, Mazda, Toyota e EMI Music, só para citar alguns − é reflexo de um estilo inconfundível que foge do óbvio. Fora do circuito comercial, Paco é visto em galerias de diferentes países, onde expõe fotos artísticas que podem ser adquiridas por valores que variam entre 900 e 25 mil Euros. Paco não só faz fotos, como as explica. A seção News do seu site www.pacoperegrin.com traz uma vasta agenda de workshops e conferências que realiza anualmente, especialmente em escolas de fotografia.

A habilidade artística de Paco é reconhecida por prestigiadas instituições, como o International Center of Photography (NYC), o Central Saint Martins College of Art and Design (Londres) e o Centro Andaluz de Arte Contemporânea (Sevilha). Em 2008, recebeu o Prêmio Nacional de Fotografia Profissional LUX em Moda e Beleza.

Suas fotos, geralmente com modelos de peles alvíssimas, recriam fantasias, passeiam entre o real e o irreal, exploram o mistério e navegam pelo surrealismo. Há quem o compare a outro mestre da fotografia de moda, o controverso francês Guy Bourdin, discípulo de Man Ray, que trabalhou para a Vogue durante três décadas, entre 1955 e 1987. Assim como Bourdin, Paco persegue a perfeição técnica e a beleza que transcendem os padrões tradicionais.

As experiências acumuladas em campos como o design, a comunicação, o teatro e a pintura possibilitam a Peregrín o controle de todo o processo da foto, do clique ao tratamento final. Assim, Paco garante que suas fotos têm muito menos retoques do que pode parecer.

"Na minha fotografia procuro criar imagens que transcendam o belo"

Trabalhar quase sempre com a mesma equipe de assistentes é também um dos artifícios do fotógrafo para garantir a excelência das imagens.

Paco nasceu em Almería, às margens do Mediterrâneo, mas estabeleceu sua base de vida e trabalho em Madri. Simpático e solícito, atendeu prontamente ao pedido da The Book para a entrevista, não sem antes pedir para conhecer o projeto da revista. Depois da troca de meia dúzia de e-mails, Paco respondeu a todas as perguntas e ainda se ofereceu para produzir um editorial de moda para a revista. Bem, nem precisamos dizer que este passou a ser o nosso sonho de consumo para as próximas edições. A seguir, a entrevista na qual revela mais detalhes sobre a carreira e como produz suas espetaculares imagens.

O que gosta mais de fazer: editorial de moda ou publicidade?
Gosto das duas coisas, já que a publicidade que costumo fazer está relacionada em geral com moda e beleza. Na publicidade, os orçamentos são muito altos, o que nos possibilita fazer coisas muito interessantes. Mas, claro, é no campo editorial que os fotógrafos têm mais liberdade criativa dentro da fotografia comercial.

Fotografia de moda é arte?
Creio que a fotografia de moda deixou de ter somente um caráter documental e promocional para ter um caráter artístico onde prevalecem a expressão e a personalidade do fotógrafo.

Quais os passos você segue na hora de planejar um novo trabalho? O que predomina: os critérios comerciais ou os artísticos?
Para mim, os artísticos são fundamentais, ainda que por respeito ao cliente tenha de considerar certas características objetivas da marca, o cliente em potencial etc. Antes de cada sessão de fotos, há um grande trabalho prévio. É preciso pensar o conceito, desenvolver a proposta, a estética, a forma de executar, buscar a melhor equipe para realizá-lo e coordenar o grande número de pessoas que participa.

A crise econômica que afeta a Europa mudou sua forma de trabalhar? Em que aspecto?
Os orçamentos são menores e está-se fazendo menos projetos arriscados, por isso estou projetando meu trabalho em nível internacional para poder ampliar a clientela e a rede de profissionais. Por outro lado, a carência de meios faz com que tenhamos de quebrar a cabeça para realizar as sessões de fotos com um orçamento menor que o desejável. Também buscamos mais parceiros e patrocinadores que facilitem a produção.

O que deve prevalecer em seu trabalho acima de tudo?
Pretendo sempre fazer um trabalho profissional, correto, que satisfaça minhas exigências e gostos pessoais, mas que vá mais além, que tenha um toque de ousadia, de mistério, que seja um trabalho belo, mas ao mesmo tempo interessante e que transmita sensações.

O que nunca pode faltar em um trabalho?
O envolvimento em cada projeto que realizo.

Até que ponto você tem liberdade criativa em um trabalho?
Geralmente tenho muita liberdade criativa. Enfrento somente as limitações próprias dos formatos e do meio, e de não cair no vulgar. Mas tenho a sorte de que os clientes que me chamam o fazem porque gostam do meu estilo e querem que interprete suas marcas e, com isso, me dão muita liberdade.

Quais são as suas principais referências?
A arte, a pintura, a música, o dia a dia. Qualquer momento, pessoa, coisa ou emoção pode inspirar uma obra fotográfica.

Como equilibrar sucesso comercial e reconhecimento artístico?
Sempre dei prioridade à criatividade. O sucesso comercial chega ou não, dependendo de muitos fatores, às vezes alheios ao fotógrafo. A moda também influencia, assim como o estilo e confiabilidade em meu trabalho. A verdade é que,A para se ter sucesso, creio que o fundamental é ter personalidade e fazer o que se gosta, envolver-se muito com o trabalho e esforçar-se em cada projeto.

Qual é o seu conceito de beleza? O que é para você o bonito e o feio?
Os conceitos do que é bonito e feio são muito subjetivos. Na minha fotografia procuro criar imagens que transcendam o belo. Procuro mostrar minha visão pessoal, mais do que algo simplesmente bonito.

Suas fotos comunicam uma beleza peculiar que vai mais além dos estereótipos clássicos. É um estilo ou uma crítica?
Ambas as coisas. Pessoalmente sempre me identifiquei com as minorias. Creio que seu ponto de vista é mais interessante, enquanto a beleza é sempre a mesma. Prefiro uma beleza original, com raridades. Gosto de destacar o que nos diferencia dos demais e o que nos faz único. Nos meus castings, fujo das belezas mais comerciais para centrar-me nas mais especiais.

Do que gosta mais, arte ou moda?
Gosto igualmente de ambas. O que não gosto é do mercado de arte porque está bastante contaminado e obedece a fatores aleatórios e alheios ao talento.

Qual foi sua maior escola de fotografia? Em sua ampla formação, quais artistas e movimentos foram decisivos para a formação do estilo que te caracteriza?
A melhor escola é a própria experiência. Ainda que tenha estudado muito, me considero, em parte, autodidata, já que na minha época não havia escolas nem cursos especializados em fotografia de moda. Minhas maiores referências não são fotográficas, mas provêm do mundo da arte. Tenho interesse por vanguardas como o futurismo, a arte contemporânea, o Art Déco, o modernismo, a pintura flamenca, o barroco, a dança, a escultura.

Em que momento da sua carreira percebeu que o seu trabalho estava sendo reconhecido em todo o mundo?
É muito difícil determinar um momento concreto porque minha carreira foi sendo construída sem pressa, mas sem pausa. Fui subindo degrau por degrau e cada pequena conquista supunha um reconhecimento importante para mim. A primeira publicação em uma revista, a primeira capa, a primeira publicação internacional e a primeira campanha de publicidade foram momentos decisivos e importantes na minha carreira.

Como está sua agenda para 2013? Tem novas exposições marcadas?
Tenho várias exposições previstas em Madri e Paris, e tenho outros projetos muito interessantes para serem concretizados. Ficaria encantado de ter a possibilidade de mostrar meu trabalho em muitos lugares. No momento, tenho viagens a trabalho marcadas para o México e Londres.

Podemos crer que os fotógrafos de moda são bem pagos?
Me sinto afortunado por poder viver do meu trabalho, que é minha paixão, mas é certo que o mundo editorial está passando por um momento complicado e os orçamentos são muito baixos. É na publicidade que os fotógrafos são mais bem pagos.


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