O empresário Hiury Gutemberg espera faturar R$ 150 milhões até final de 2013 | Fotos: Edgard Soares
O empresário Hiury Gutemberg espera faturar R$ 150 milhões até final de 2013 | Fotos: Edgard Soares

Sob a luz do LED

Se você fosse o prefeito de uma cidade e recebesse a proposta de trocar toda a iluminação pública que o possibilitasse sair de uma conta mensal de R$ 380 mil para uma de R$ 36 mil; e fizesse cair o gasto com manutenção de R$ 600 mil para R$ 50 mil, mas para isso tivesse de desembolsar R$ 7 milhões ao invés de R$ 100 mil reais, o que faria?

Este é o desafio a que o empresário mineiro Hiury Gutemberg, 35, se propôs desde que a CE Clean Energy, empresa fundada por ele e outro sócio, na China, desembarcou há seis anos no Brasil: convencer os setores público e privado de que a iluminação por lâmpadas LED pode ser a grande coadjuvante no Plano Nacional de Ação para Eficiência Energética, lançado em 2012, que pretende reduzir em cerca de 30% o consumo até 2030.

Se você fosse o prefeito de uma cidade e recebesse a proposta de trocar toda a iluminação pública que o possibilitasse sair de uma conta mensal de R$ 380 mil para uma de R$ 36 mil; e fizesse cair o gasto com manutenção de R$ 600 mil para R$ 50 mil, mas para isso tivesse de desembolsar R$ 7 milhões ao invés de R$ 100 mil reais, o que faria?

Belo Horizonte foi a primeira capital a aderir à proposta da CE Clean Energy e a trocar toda a rede semafórica por lâmpadas LED. No setor privado, empresas como a Pif Paf Alimentos, Ricardo Eletro, Drogaria Araújo, Grupo Saint-Gobain, shoppings de Minas Gerais e São Paulo e Pharlab Indústria Farmacêutica estão na lista de clientes de Gutemberg.

Ainda sem concorrentes no País, o empresário nada sozinho em um mar de necessidades no setor elétrico, que se vê obrigado a tomar medidas para evitar o desperdício -- que chega a 10% da carga total (419.016 GWh), de acordo com estudos do Ministério das Minas e Energia --, e possibilitar a expansão econômica do Brasil. Em um dos rasantes que fez a Goiânia para atender a compromissos com empresários, concedeu à The Book a entrevista a seguir, em que revela, entre outros pontos, que a Claen Energy espera fechar o ano com faturamento de R$ 150 milhões.

Porque escolheu estabelecer a empresa fora do Brasil?
Porque o berço da tecnologia de iluminação a LED está na China. O LED existe desde 1940, mas o aprimoramento disso foi feito na China. O custo trabalhista somado na operação é mais viável por lá. Torna mais competitivo em qualquer mercado. E meu sócio já morava havia dois anos na China.

Estou bebendo água limpa porque comecei a operação em 2007. É o único motivo. Brigar com a General Eletric não é brincadeira. 

A Clean Energy tem o melhor preço aqui no Brasil?

Não digo o melhor preço no Brasil. Tenho alguns concorrentes que são importadores. Eles chegam a uma feira e importam de qualquer fábrica fundo-de-quintal e trazem para o Brasil.

Então você tem uma gama maior de produtos a oferecer?
Tenho. Estou bebendo água limpa porque comecei a operação em 2007. É o único motivo. Brigar com a General Eletric não é brincadeira. Creio que a gente tenha mais um ano e meio ou dois anos de vida sem uma interferência. Depois entramos em uma guerra de preço.

Como surgiu a ideia de atender esse mercado específico de LED?
Ao me formar, abri a Trade Company, empresa apta a importar e exportar produtos de qualquer lugar do mundo. Em 2005 fiz uma aliança com o meu sócio na China. Ele era meu fornecedor. Estava vendo algo para despontar na China e tinha esse projeto engavetado. Via as coisas acontecerem lá, sabia qual era o potencial, onde poderia chegar, mas estava esperando uma oportunidade de investimento. Em 2005 me convenceu de, inicialmente, colocarmos U$ 200 mil dólares na operação de engenharia. Não existia produto. Cerca de seis meses depois tínhamos uma lâmpada de iluminação pública, a IP30.

A empresa visava o comércio convencional?
Visávamos apenas fazer uma gama de produtos que atendessem ao mercado. De 2005 a 2009, quando começamos a vender, colocamos U$ 4 milhões de dólares na operação. Com este investimento, em 2009 já tínhamos uma planta industrial de 2.000 metros quadrados, oito linhas de produção automatizadas, 150 funcionários, 17 produtos em linha, e já estávamos prontos para atender todo o mercado público na área de iluminação semafórica e todo o mercado institucional e de empresas. Em novembro de 2009, vencemos a primeira licitação. Em 2010, fizemos Belo Horizonte, com os 33 mil pontos de semáforos iluminados a LED. Em 2010 começamos a atender a Pif Paf Alimentos, Ricardo Eletro, Drogaria Araújo, Grupo Saint-Gobain, alguns shoppings de Minas Gerais e São Paulo, redes hoteleiras, Pharlab Indústria Farmacêutica, entre outros clientes.

No setor de iluminação pública o que vocês já fizeram?

Em Belo Horizonte já começamos, fomos contratados pela prefeitura. Existe uma questão técnica que tinha que ser observada: os municípios eram acometidos por um erro da administração pública. As concessionárias antigamente eram de energia pública e, ao longo do tempo, foi se modificando e passaram a ser privadas. Vieram novas formas de geração de energia, que passaram a ser de concessionárias privadas. Alguns Estados, por exemplo, não têm concessionária pública gerindo o sistema atual de distribuição de energia nem geração. A lei antiga determinava que a gestão da compra de material e de sua instalação fosse feita pela concessionária. O município comprava o material, como um bem público, e doava para o ente privado. Isso era uma discrepância monumental em virtude do poder que a administração pública tem de exercer. Isso deveria ser leiloado ou ter outra forma de fazer. O STF decidiu em 2012 que a gestão disso volte para os municípios e os ativos que foram doados retornem a eles. Foi determinado que as concessionárias devolvessem tudo no prazo de janeiro desse ano até 14 de janeiro do ano que vem. Até então a gente enfrentava um problema de ordem pública.

Em que ponto o entrave prejudicava a negociação?
Tínhamos de passar por uma fase de aprovação do nosso equipamento pelas concessionárias. Por exemplo, somos auditados pela Semig de seis em seis meses. Ela vai à planta industrial, audita o processo de produção e dá um atestado técnico. Mas se viesse para Goiás, teria de começar o processo do zero. Isso acabou e já estamos trabalhando em quatroze municípios no Brasil, inclusive em duas grandes capitais.

A CE Clean Energy oferece um equipamento com maior durabilidade, menos manutenção, mas em compensação o valor é maior. Em quanto tempo é possível gerar economia?
O melhor exemplo que temos é da iluminação semafórica em Belo Horizonte. A cidade pagava R$ 380 mil de energia elétrica por mês para deixar o parque semafórico funcionando noite e dia. Tinha um contrato com base mínima de R$ 50 mil, e a cada acesso. além daquele dispositivo que está dentro dos R$ 50 mil, vamos supor duzentos acessos, pagaria um valor fixo por troca de equipamento. Antes, queimavam em média dois mil equipamentos por mês, totalizando um gasto de R$ 600 mil, o dobro do valor da energia.

Como ficaram as contas?
Onde havia uma lâmpada de 100 watts, o meu equipamento agora gasta 7,52 watts, uma economia de 92,8% em energia elétrica. Saímos de uma conta de R$ 380 mil para uma de R$ 36 mil em energia elétrica. Em três anos de garantia foram queimados apenas 16 equipamentos. Assim, a prefeitura pagou o mínimo do contrato, que é R$ 50 mil, pelo o período, porque não o acessou acima dos 200 equipamentos.

É uma economia muito significativa.
A matemática é simples. Para trocar 33 mil pontos de equipamentos incandescentes a prefeitura gastaria R$ 100 mil de produto. Com LED isso custaria R$ 7 milhões. Mas com o equipamento incandescente a troca ocorre de seis em seis meses e requer uma mão-de-obra gigantesca. É um número muito grotesco, mas quando colocamos em um projeto os problemas que a iluminação pública dá, comprova-se que com LED é muito mais viável. Uma informação interessante é que, se trocarmos por LED todas as lâmpadas de iluminação pública de todas as capitais do Brasil e as cidades com mais de 500 mil habitantes, economizaríamos uma Belo Monte, que é a usina hidrelétrica que está sendo montada no Pará. A diferença é que gastaríamos 20% do efetivo da Belo Monte. Então, se lá está custando R$ 60 bilhões, nós gastaríamos 20%.

Se todas as cidades com mais de 500 mil habitantes comprassem esse projeto, a empresa teria condição de atender a todas elas?
Com certeza. A minha produção é por demanda. Mas para ter uma ideia, produzimos 33 mil equipamentos, a operação inteira de BH, em 30 dias, sem mexer na planta de funcionários. Creio que o grande diferencial da China para o Brasil é que é possível triplicar uma planta industrial em 30 dias. Não falta mão-de-obra, não falta insumo, não falta lugar. O governo está sempre te incentivando a produzir mais.

Qual a capacidade da planta industrial?
Duzentos mil equipamentos por mês. Para ter uma ideia de valor, São Paulo hoje está com 180 mil semáforos instalados. Eu produziria em um mês, trabalhando em três turnos. Para uma cidade como Goiânia, que deve ter 60 mil postes, produzo em dois meses. Se trabalhar em três turnos produzo 180 mil equipamentos.

Como fica a questão ambiental?
Existem duas agências no mundo que dão uma certificação chamada Selo Verde, uma em Londres e a outra na China. Estamos tentando virar um braço dessa certificadora para poder entregar um projeto carimbado com o Selo Verde para o cliente. Porque nosso produto pode ser descartado no meio ambiente. Não tem mercúrio ou gases nocivos.

A CE Clean Energy tem parceria com alguma empresa de reciclagem?
Ainda não. Estamos dentro da fase de três anos de garantia. Nessa fase recolhemos o equipamento e o reaproveitamos. É lógico que quando o Selo Verde for implementado, teremos de ter, obrigatoriamente, uma forma de recolhimento desses produtos no mercado.

O Brasil já paralisou a fabricação de lâmpadas incandescentes, pelo menos duas foram banidas do mercado.
Na Europa já está vigorando desde 2011, e no Brasil tem uma previsão de paralisação para 2014. Mas ainda encontramos lâmpadas incandescentes no mercado. Não é igual à troca de tomadas no Brasil, que saiu uma lei e no mês seguinte já haviam saído do mercado.

O Brasil é o décimo país que mais investe em energia limpa. O potencial brasileiro é estimado em 143 gigawatts, equivalente a dez Itaipus.
Sim. O problema de energia é que não pode ser guardada. Então é preciso gerar a todo momento para poder abastecer a base instalada. A eficiência energética hoje é a forma mais barata de gerar energia, aproveitar o que está instalado. Estamos trabalhando para uma montadora de veículos de Minas Gerais onde, se crescer 1%, a companhia energética não consegue mais fornecer energia. Essa empresa é obrigada a continuar fabricando o mesmo número de carros anualmente para não extrapolar a quantidade de energia disponibilizada. O modelo que estamos fazendo para a substituição da iluminação em toda a planta da montadora deverá gerar entre 10% a 15% de economia de energia e, consequentemente, lhe possibilitará aumentar a operação de fabricação de veículos.

Se o LED é mais eficiente que a lâmpada comum, por que os governantes não estão como mariposa em busca de luz?
Todo produto com alta tecnologia tem um custo que o acompanha. Quando é feita para ter durabilidade, existe o preço que acompanha a tecnologia. O Brasil não está acostumado a qualidade. Depois, somos muito imediatistas. Estive com um empresário que disse que, para o projeto compensar, o custo/benefício era seis meses. Não tem como, é irreal. Seria leviano, da minha parte, dizer que algum projeto meu tenha dado retorno em menos de 24 meses. Na administração pública, o segundo entrave são os projetos de alto cunho financeiro, alto valor agregado, que foram feitos para durar mais que um mandato. O administrador público tem de ter uma cabeça muito boa a ponto de deixar um legado, uma marca na sua administração.

O governo pretende reduzir em 30% os gastos com energia e tem o Fundo de Eficiência Energética destinado para este fim.
Isso. Este fundo hoje é um dos nossos principais financiadores. Mas nós também temos um projeto de caixa própria. O BNDES também tem uma linha chamada Procer.

Qual é a perspectiva de venda da Clean Energy para 2013? Qual a meta de trocas lâmpadas no País?
Isso é muito difícil de calcular, mas imagino faturar esse ano R$ 150 milhões de reais.

FOTOGRAFIA | EDGARD SOARES

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