Paraíso na terra

Incrustada nas verdejantes colinas da costa norte da Espanha, San Sebastián reúne todas as delícias de um roteiro de férias: culinária rica, praias de areias douradas e passeios por imponentes avenidas e edifícios belle époque

 A primavera já havia chegado, mas apenas no calendário. O vento persistente ainda trazia o frio que surpreendia mesmo os mais acostumados às baixas temperaturas. Deleite para os surfistas. Com seus macacões de neoprene, não se intimidavam com as águas geladas do Atlântico, vindos de todas as partes da Europa em busca das melhores ondas. O mar, as praias de areia fina e dourada e a arquitetura mesclando o clássico e o barroco formaram a minha primeira impressão da capital basca. A visita a San Sebastián (Donostia, em euskera, a língua basca) começava na companhia de amigos ávidos por descobrir os encantos do antigo balneário dos reis da Espanha.

O passeio a pé, a partir do antigo mercado central, atravessa praças com flores ainda tímidas, enfeitadas por fontes em forma de anjos e ninfas. No coração da zona antiga da cidade, a Plaza de La Constitución concentra bares, lojinhas e museus. E é nesse período que suas esplanadas ganham a presença de convidativas mesas, verdadeiros camarotes a céu aberto, permitindo admirar a vida que passa leve e sossegada pelo balneário.

San Sebastián convida à mesa. Não à toa o lugar goza de superlativos como “a capital gastronômica da Europa”, “o melhor lugar para se comer no mundo”, e registra a maior concentração de estrelas do Guia Michelin, fato que os próprios bascos adoram lembrar, em euskera, o idioma local.

A estação fria e preguiçosa é só um motivo a mais para apreciar um excelente vinho dentro de um acolhedor pub ou café. Melhor ainda se a taça for acompanhada pelos tradicionais pintxos, a versão basca das famosas tapas espanholas. Os recheios podem ser à base de legumes, carne assada, grelhada ou ao molho, peixe, crustáceos ou mariscos. Vem à mesa em pequenas porções, servidas sobre fatias de pão caseiro com um palito espetado. Em alguns casos, os pintxos reproduzem pratos do restaurante em miniatura. Custa de 10 a 20 Euros a porção. O vinho da casa, servido na taça, sai por até módicos 5 Euros, e um bom e caprichado sanduíche à moda exótica dos bascos gira em torno de 15 Euros.

A taberna Paco Bueno, à primeira vista, não chama a atenção, mas é uma grata surpresa ao paladar

Minha experiência gastronômica foi na simpática e estreita rua do centro antigo, no idioma local chamada de Kale Nagusia. A taberna Paco Bueno, à primeira vista, não chama a atenção, mas é uma grata surpresa ao paladar. Os fregueses mais comuns são os próprios moradores da cidade. No entanto, cada vez mais turistas descobrem o lugar, atraídos pelo ambiente descontraído, simples e familiar. Ah, e, claro, pelo aroma que escapa pelas ruas. Funcionários bem-humorados correm em frenesi para atender a casa cheia, supervisionados de perto pelos proprietários, pai e filho, no mais tradicional estilo avental e lenço na cabeça, entre o balcão e a cozinha. O pai, um ex-lutador de boxe, e o filho, um louco por rugby.

Então, esqueça a dieta. Entregue-se à santa gula sem peso na consciência. Afinal, onde mais terá a chance de se deliciar com um autêntico sanduíche de bacon, presunto e chorizo com o toque de mestre: um ovo frito na própria crosta recortada do pão. Divino! Uma taça de tinto da casa e, voilà, a magia está feita, e por apenas 13 Euros.

Bem pertinho, ainda na Kale Nagusia, a padaria Galparsoro é capaz de deixar qualquer parisiense de queixo caído com os melhores pães, baguetes e brioches da região. A massa leve e saborosa derrete na boca. É uma opção fabulosa para se deliciar enquanto continua a caminhada em busca dos pequenos tesouros da “cidade velha”.

Naquela que é considerada a mais francesa das cidades espanholas, o idioma basco, o euskera, se mistura ao castelhano e, até um pouco, ao francês. Mas, não importa a língua. Com um sorriso simpático e a ajuda do menu ilustrado - uma grande ideia -, a refeição estará garantida. E não é por acaso que se diz que “tudo no país basco se resolve à volta da mesa”.

A partir do mercado central, o corredor de ruas exclusivas para pedestres permite uma surpreendente vista da Catedral Neogótica do Bom Pastor

Se exagerar no pedido, fique tranquilo. A cidade é um convite às caminhadas. Um calçadão de 6,5 quilômetros à beira mar abraça as três principais praias da cidade e proporciona um passeio, curtindo as belezas do porto e das serras próximas, respirando a maresia. Do calçadão recomendo uma parada para fotografar o Monte Urgull, coberto por mata nativa que exibe no alto uma estátua de Jesus. Você pode ainda se perder pelas ruelas charmosas, onde cada esquina reserva uma surpresa, como as lojinhas de doces e souvenirs. A partir do mercado central, o corredor de ruas exclusivas para pedestres permite uma surpreendente vista da Catedral Neogótica do Bom Pastor de um lado e a Igreja de São Sebastião, do outro.

Para os amantes do cinema, a dica é visitar a cidade em setembro. Além de aproveitar o clima ameno de começo de outono, nesse mês é realizado o Festival Internacional de Cinema de San Sebastián, um dos mais prestigiados e famosos do mundo, cuja primeira edição aconteceu em 1953.

A Baía de La Concha, junto ao mar Cantábrico, é uma das paradas obrigatórias em San Sebastián. Dizem que caminhar por suas areias é garantia de voltar. Pelo calçadão temos a privilegiada vista do porto. O acesso à praia é feito pelas escadarias adornadas por peitorais estilo belle époque e suas luminárias, marcas registradas da cidade.

Se a Baía de La Concha é admirável de pertinho, imagine a vista do alto. Isso é possível através do passeio em funicular, o mais antigo do País Basco. Inaugurado em 1912, coincidiu com a abertura do Parque de Diversões no alto do Monte Igeldo, permitindo ver impressionantes panorâmicas da Praia de La Concha. Ele percorre uma distância de 320 metros, tem capacidade para setenta pessoas, e a viagem, que sai a cada 15 minutos, dura três minutos de contemplação.

Antigo refúgio de reis e rainhas, o balneário abriga desde os quarteirões nobres às construções medievais da parte vieja, que resistiram a vários incêndios e ataques séculos atrás. Seja do alto de seus morros com vistas incríveis para o mar ou das pontes e passarelas de seus portos, San Sebastián se impõe, majestosa.

ONDE FICAR

Se você é do tipo aventureiro, despachado e quer economizar, pode optar pelos acampamentos nos arredores da cidade. Um deles é o Camping Igueldo, que oferece banheiro, duchas, máquinas de lavar e secar roupas, restaurante e área de bar, além de um parque infantil. Um serviço regular de ônibus está disponível a cada 20 minutos e custa 1,60 Euro. As tarifas variam de 30 a 50 Euros, de acordo com o tipo de ocupação (barraca individual, família, trailler), na baixa temporada.

Mas se você procura conforto e ainda assim quer ficar pertinho da praia, uma boa opção é o Silken Amara Plaza. Um quatro estrelas com diárias a partir de R$ 250,00 (quarto duplo por pessoa), na baixa temporada (outubro/novembro), wifi gratuito e a comodidade de check-out tardio, até às 15 horas, permitindo uma saída sem pressa. Outro excelente quatro estrelas no centro de San Sebastián é o Londres y Inglaterra, cujo encanto é o fato de ter quartos debruçados sobre a praia. Alguns o descrevem como um navio encalhado nas areias, de tão próximo que está da linha do mar. Mas há também o aristocrático Maria Cristina, o luxuoso cinco estrelas em estilo belle époque, fincado no coração da cidade, com diárias que variam entre 145 e 570 Euros.


San Sebastián convida a longos passeios pela orla de 6,5 quilômetros da Praia de La Concha

Pintxo de jamón serrano, o famoso sanduíche da taberna Paco Bueno

Os seculares tamarindos que serpenteam as avenidas da cidade

Vista da cidade de San Sebastián do alto do Monte Igeldo

1 comentário

Tatiana Tulha

Lindo!!!
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